Mais depressa não basta

Nuno Fernandes Thomaz

Presidente Centromarca

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Vivemos uma era obcecada pela velocidade. A velocidade da tecnologia. Dos algoritmos. Das decisões. Dos mercados. Da informação. Da reação permanente. Tudo parece exigir aceleração contínua, resposta imediata e adaptação instantânea.

Mas talvez uma das perguntas mais importantes do nosso tempo seja se estaremos a avançar mais depressa… ou apenas a perder mais rapidamente capacidade de interpretar o que verdadeiramente importa?

Foi a partir desta inquietação que nasceu o IV Congresso das Marcas, promovido pela Centromarca sob o mote “À Velocidade Humana”. Mais do que um evento setorial, quisemos criar um espaço de reflexão sobre competitividade, consumo, inovação, liderança, tecnologia, bem-estar e criação de valor. Um espaço para questionar, provocar, desafiar perspetivas e recentrar o foco no essencial: as pessoas.

Porque, num contexto de aceleração permanente, há algo que continua profundamente humano - e profundamente decisivo - na construção de sociedades, economias, empresas e marcas fortes: a capacidade de pensar, interpretar, decidir e liderar com profundidade.

A mobilização em torno desta quarta edição ultrapassou largamente as nossas expectativas. Mais de 900 participantes irão reunir-se no Centro de Congressos do Estoril, entre empresários, gestores, académicos, responsáveis institucionais, especialistas, representantes do retalho, da indústria, da comunicação, da tecnologia e do universo do consumo. Mais importante do que a dimensão numérica é, porém, a diversidade e qualidade do ecossistema representado.

Vivemos um momento particularmente desafiante para o grande universo das marcas.

A pressão geopolítica, a crise energética, a inflação persistente, o aumento dos custos de contexto, a reorganização das cadeias de abastecimento, a aceleração tecnológica e a crescente densidade regulatória nacional e europeia estão a transformar profundamente o ambiente competitivo. Ao mesmo tempo, os consumidores tornaram-se mais prudentes, mais fragmentados, mais exigentes e mais sensíveis ao preço, mas também mais atentos à coerência, ao propósito e à confiança.

Tudo isto cria uma tensão particularmente exigente para as empresas.

Porque hoje já não basta produzir bem. Não basta ser eficiente. Não basta comunicar. É necessário interpretar contexto, antecipar mudança, construir relevância e preservar capacidade de diferenciação num ambiente cada vez mais volátil e imprevisível.

As marcas vivem precisamente nessa intersecção. Entre consumo e confiança. Entre inovação e proximidade. Entre tecnologia e humanidade. Entre eficiência e criação de valor.

Foi por isso que desenhámos um programa deliberadamente plural, transversal e provocador. Ao longo do Congresso discutimos palavras, linguagem e comunicação; consumo e comportamento humano; saúde mental, longevidade e bem-estar; cidades, contexto urbano e novas demografias; tecnologia, inteligência artificial e produtividade; inovação, retalho, liderança e talento.

À primeira vista, temas muito diferentes. Mas, na verdade, todos ligados por um mesmo fio condutor: compreender como construir valor sustentável num mundo cada vez mais acelerado e complexo sem perder o centro humano das decisões.

Falaremos, por exemplo, sobre a importância das palavras num tempo de comunicação instantânea e superficial. Refletiremos sobre consumidores que mudam rapidamente, pressionados por inflação, novas dinâmicas familiares, imigração, envelhecimento demográfico e transformação social. Discutiremos a relação entre saúde mental, produtividade e qualidade de vida numa sociedade cada vez mais exigente. Debateremos cidades, território, proximidade e novos espaços de consumo.

E naturalmente abordaremos também a transformação tecnológica. A inteligência artificial e a digitalização estão a alterar profundamente a forma como empresas tomam decisões, gerem cadeias de abastecimento, antecipam tendências, comunicam e criam experiências de consumo. Mas talvez uma das pistas mais relevantes será certamente esta: tecnologia sem discernimento humano não gera necessariamente melhor decisão.

A velocidade relevante não é apenas a da execução. É a da compreensão.

O mesmo se aplica à inovação. Num contexto de forte pressão promocional, simplificação de sortidos e crescente exigência de retorno imediato, inovar tornou-se simultaneamente mais necessário e mais difícil. O Congresso procurará precisamente discutir essa tensão entre criatividade, foco e eficácia. Porque inovação não pode transformar-se apenas em acumulação de lançamentos ou em corrida tecnológica desordenada. Inovar continua a ser, acima de tudo, criar valor relevante para pessoas reais.

Outro dos grandes temas centrais será o retalho e a relação entre distribuição, marcas e consumidores. Num mercado particularmente competitivo, pressionado pelo preço e pela crescente relevância da marca própria, torna-se essencial preservar equilíbrio, capacidade de diferenciação e espaço para inovação. O retalho moderno é hoje muito mais do que espaço de transação: é espaço de experiência, proximidade e socialização. Mas é também um ponto de enorme tensão competitiva, onde se joga diariamente parte relevante da criação de valor da economia.

Por isso continuaremos a defender que proteger o consumidor não pode significar fragilizar a capacidade produtiva, o investimento ou a inovação.

Ao longo dos últimos anos, o setor do grande consumo demonstrou enorme resiliência num ambiente particularmente difícil. Empresas e cadeias de abastecimento conseguiram responder a ruturas logísticas, inflação, pressão energética e alterações profundas nos padrões de consumo sem comprometer abastecimento, qualidade ou capacidade operacional.

Mas é importante perceber que resiliência não é infinita. Quando a pressão sobre custos, margem, investimento e contexto regulatório se torna excessiva, toda a cadeia perde robustez. E isso acaba inevitavelmente por afetar inovação, diversidade de oferta, produtividade e competitividade futura.

É precisamente essa mensagem que procuraremos transmitir também neste Congresso. Portugal precisa de respostas públicas mais previsíveis, equilibradas e estruturalmente orientadas para competitividade, investimento e criação sustentada de valor. Precisa de maior coordenação institucional. Precisa de melhor articulação entre economia, agricultura, consumo, concorrência e sustentabilidade. E precisa, sobretudo, de reforçar seriamente a sua cultura de marca.

Porque marca não é apenas comunicação. Marca é propriedade intelectual. Marca é diferenciação. Marca é confiança. Marca é inovação. Marca é internacionalização. Marca é escala. Marca é valor acrescentado.

Se Portugal quiser afirmar-se numa economia global cada vez mais sofisticada e competitiva, terá inevitavelmente de acelerar a transição de uma economia excessivamente centrada em produção e preço para uma economia orientada para valor, reputação e diferenciação.

Essa será uma das grandes mensagens deste IV Congresso das Marcas.

Num mundo dominado pela velocidade, o verdadeiro desafio talvez já não seja acelerar mais. É acelerar melhor.

Com mais pensamento. Mais foco. Mais consistência. Mais cultura. Mais liderança. Mais capacidade de interpretação.

Porque o futuro não pertencerá necessariamente aos mais rápidos.

Pertencerá aos que conseguirem manter ambição, inovação e competitividade sem perder aquilo que verdadeiramente diferencia organizações, marcas e sociedades sustentáveis: A capacidade profundamente humana de criar valor com sentido.

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