Mais férias ou melhores empresas?
Em Portugal, os trabalhadores têm, atualmente, cerca de 30 dias de descanso por ano – excluindo fins de semana –, entre os 22 dias de férias legais e uma dezena de feriados.
O tema volta recorrentemente à agenda quando se fala da possibilidade de repor os três dias de férias que a troika retirou a grande parte dos portugueses – há empresas privadas que têm contratos que permitem dias úteis de férias acima dos 22 previstos pela lei portuguesa –, mas sempre que a proposta regressa, há quem atire a justificação de “produtividade” para a vetar. Mas será mesmo assim?
Portugal é, e graças aos feriados, um dos países da União Europeia onde os trabalhadores mais dias de descanso podem ter. A média ronda os 22 dias, com países como a Dinamarca (25), França (25), Luxemburgo (26) ou Finlândia (24) a encabeçar a lista dos mais generosos em termos de férias legais. No entanto, dias de férias nem sempre são sinónimos de dias de descanso. Isto porque em alguns dos países, como é o caso de França, é possível vender esses dias de férias, e receber mais rendimento em troca.
Os especialistas dividem-se quanto ao impacto das férias na produtividade dos trabalhadores, não por princípio, naturalmente, mas pelo que mostram os dados. Em primeiro lugar, o descanso deve ser valorizado porque, por norma, trabalhadores mais descansados são, também, mais produtivos. Além disso, todas as questões relacionadas com saúde mental, que têm tido mais atenção ao longo dos últimos anos, fazem com que os tempos de descanso sejam também mais valorizados, estando cientificamente comprovado que o correto equilíbrio da vida pessoal e profissional, a gestão do stress e o direito a desligar são ferramentas fundamentais para manter os trabalhadores motivados e mais eficientes.
No entanto, em economias fortemente assentes em indústrias, como é o caso da alemã, alguns indicadores revelam que um maior número de férias tem um impacto mais negativo na economia, devido à paragem de empresas que têm uma componente intensamente produtiva.
Um estudo do instituto ZEW, na Alemanha, publicado em 2025, analisou o impacto dos feriados que calham ao fim de semana – ou seja, que não retiram dias úteis ao calendário laboral. A comparação permitiu medir o efeito dos feriados “úteis” na produção industrial. A conclusão foi que cada feriado reduz a produção, mas o impacto é modesto. As estimativas variam entre 0,06% e 0,28% do PIB anual, dependendo do setor. A indústria sente mais; os serviços quase não mexem.
No mesmo sentido, um estudo conduzido por Lucas Rosso (Universidade do Chile) e Rodrigo Wagner (Universidade de Harvard), acompanhou as economias de 221 países ao longo de 20 anos – incluindo todas as economias europeias – e deu conta de que acrescentar um dia de trabalho pode aumentar 0,17% ao PIB. A análise foi feita com base na mesma variação que o estudo do instituto ZEW. No entanto, esse aumento provoca ainda uma subida da mortalidade laboral e maior insatisfação dos trabalhadores e tem um impacto muito mais significativo na indústria do que em outros setores.
Aliás, em economias que têm nos serviços grande parte da criação da sua riqueza, como seria o caso de Portugal, os dias de férias podem, muitas vezes, compensar a paragem dos trabalhadores através do aumento do consumo. O que é certo é que por cá, mesmo com o corte de dias de férias, a produtividade não aumentou – e a economia também não descolou por aí fora. Na verdade, a produtividade em solo nacional mantém-se significativamente abaixo da média europeia, mesmo com praticamente os mesmos dias de descanso que economias como Luxemburgo ou Dinamarca, que estão entre os mais produtivos.
Dados da Pordata, revelados este ano, deram conta de que a produtividade média por trabalhador, em 2024, era, em Portugal, de 48 mil euros, quando na UE a média era de 74 mil euros. Isto coloca Portugal na parte inferior do ranking europeu, muito distante dos líderes (Irlanda 194 mil euros, Luxemburgo 152 mil euros, Bélgica 110 mil euros), sobretudo devido a questões estruturais: temos demasiadas microempresas, poucas empresas de alto crescimento, investimento genericamente insuficiente em I&D e digitalização, acesso limitado a financiamento de risco e, como o FMI não se cansa de repetir, um nível de burocracia que reduz velocidade e escala.
Assim, antes de discutirmos se precisamos de mais ou menos dias de férias – e espero que esteja a gozar dos seus enquanto lê isto, caro leitor –, talvez fosse mais relevante refletir como podemos resolver as questões estruturais que continuam a atirar as nossas empresas para níveis de competitividade e produtividade que não se coadunam com a de um país que se diz desenvolvido.
