O difícil salto para um Conselho de Administração

Soledade Carvalho Duarte

Managing Partner da Invesco TRANSEARCH

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Há Executivos com carreiras brilhantes que nunca chegam a um Conselho de Administração e outros, aparentemente menos óbvios, que acabam por conquistar esses lugares com naturalidade. Ao longo dos anos, tornou-se claro para mim que a competência técnica e a entrega de resultados, sendo essenciais, raramente são suficientes.

Ao acompanhar processos de recrutamento para Conselhos de Administração, tenho visto excelentes executivos falharem essa transição não por falta de competência, mas porque aquilo que os tornou gestores de excelência nem sempre é o que os deixa melhor preparados para subir a uma Administração.

Um gestor vive próximo da execução, da rapidez da decisão, da operação e da pressão diária dos resultados. Um administrador precisa de conseguir afastar-se dessa dimensão mais imediata para olhar a organização de forma mais ampla, estratégica e independente.

Chegar a um Conselho de Administração exige mais do que experiência acumulada, exige independência intelectual, capacidade de fazer perguntas difíceis, maturidade para decidir em contextos de incerteza e visão para pensar para lá da urgência do momento.

Para integrar um Conselho de Administração procuram-se pessoas capazes de trazer perspetiva, equilíbrio e discernimento, pessoas que saibam questionar sem destruir, apoiar sem interferir e contribuir sem necessidade de protagonismo.

Existe ainda uma característica difícil de definir, mas imediatamente reconhecível quando está presente: gravitas. Uma combinação de maturidade, clareza de pensamento, equilíbrio, credibilidade e autoridade natural. Não tem nada de arrogância ou teatralidade, pelo contrário, revela-se muitas vezes numa presença serena, na capacidade de escutar, de manter clareza sob pressão e de inspirar confiança sem necessidade de afirmação constante.

Muitos executivos extremamente competentes nunca chegam verdadeiramente a desenvolver esta dimensão, outros,  entram numa sala e transmitem imediatamente solidez, profundidade e capacidade de julgamento. Nas escolhas para os níveis mais altos das organizações, essa diferença torna-se frequentemente decisiva.

Os Conselhos de Administração continuam a ser espaços de confiança, e a confiança não nasce apenas de um currículo, constrói-se ao longo dos anos, na forma como se lidera, na reputação que se deixa no mercado e na capacidade de gerar credibilidade e segurança.

Constato frequentemente que muitos executivos encaram a entrada num Conselho de Administração como o reconhecimento natural de uma carreira de sucesso, mas a realidade mostra-nos que nem sempre é assim. Um lugar num Conselho de Administração não é um prémio, nem o prolongamento automático de uma função executiva bem-sucedida.

Administrar exige uma mudança profunda de registo. Gerir é decidir e executar,  Administrar é saber enquadrar, desafiar, questionar e pensar para além da operação.

Talvez por isso muitos executivos que reportam a Conselhos de Administração nunca cheguem a sentar-se neles, não porque lhes falte mérito, mas porque o exercício da administração exige uma forma diferente de acrescentar valor.

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