O pesadelo económico chamado estagflação

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Há palavras que tiram o sono a qualquer economista. Recessão, défice, inflação, bolha e contágio são algumas delas, mas a que verdadeiramente causa pesadelos é estagflação. Ora acontece que a escalada do conflito no Médio Oriente trouxe de volta ao debate económico esse conceito que muitos julgavam confinado aos manuais de história económica.

O termo, que ganhou notoriedade após os choques petrolíferos da década de 1970, descreve uma situação particularmente incómoda para qualquer economia: crescimento fraco ou estagnação acompanhado por inflação elevada.

Durante décadas, os economistas acreditaram que estas duas variáveis dificilmente coexistiriam. A lógica da chamada Curva de Phillips sugeria que inflação e desemprego tenderiam a mover-se em direções opostas. No entanto, os anos 1970 mostraram que fatores exógenos à economia, como choques energéticos provocados por fortes aumentos do preço dos combustíveis fósseis, podem quebrar esse equilíbrio. Na altura, quando o preço do petróleo disparou, os custos de produção subiram, os preços no consumo aumentaram e, simultaneamente, a atividade económica abrandou de modo muito significativo.

É precisamente este risco que começa a reaparecer no horizonte. A guerra no Médio Oriente está a pressionar os mercados energéticos, com o preço do petróleo e do gás a reagirem de forma imediata às tensões geopolíticas e ao receio de perturbações nas rotas de abastecimento. Mesmo sem uma interrupção efetiva do fornecimento, o simples aumento da perceção de risco já introduz um prémio geopolítico nos preços da energia.

Para economias importadoras de energia, como a portuguesa, este fenómeno tem implicações claras. Veja-se que o gasóleo subiu nesta semana cerca de 20 cêntimos e tudo aponta para que o aumento na próxima se situe na casa dos 15 cêntimos. Combustíveis mais caros pressionam a inflação, quer diretamente, através do preço da gasolina, gasóleo e gás, quer indiretamente, ao encarecer transportes, logística e produção industrial. Consequentemente, o aumento dos custos energéticos tende a reduzir o rendimento disponível das famílias e a margem das empresas, o que travará o consumo e o investimento.

O resultado pode ser uma combinação incómoda: inflação mais persistente e crescimento económico mais fraco. Recorde-se que as projeções mais recentes apontavam para um crescimento da economia portuguesa próximo de 2% em 2026, mas um choque energético prolongado pode retirar umas boas décimas a esse valor – até porque, é preciso não esquecer, vivemos ainda há pouco tempo a catástrofe provocada pelas intempéries.

Não quero, no entanto, ser alarmista. A economia portuguesa de hoje não é a dos anos 1970. A diversificação das fontes de energia, o maior peso das renováveis e uma menor intensidade energética da economia constituem importantes amortecedores. Além disso, há que realçá-lo, no dia em que escrevo este artigo o preço do Brent ainda continua abaixo dos níveis registados durante a crise energética de 2022 provocada pela invasão da Ucrânia.

A história económica ensina-nos que choques energéticos e conflitos geopolíticos têm a capacidade de alterar rapidamente o quadro macroeconómico. A estagflação não é inevitável,

mas ignorar esse risco será imprudente. Em economia, como na geopolítica, o que acontece no Médio Oriente raramente fica no Médio Oriente. E convém não esquecer: o protagonista da tensão que hoje agita os mercados bem como o causador da crise energética de 2022 vão continuar à frente de duas das maiores potências mundiais. Que outros choques ainda poderão provocar?

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