Orçamento do Estado ou para as corporações?
No Parlamento, começou o debate do Orçamento do Estado que na Comunicação Social já há muito é tema de discussão.
Da opinião publicada, muita reflecte apenas interesses políticos, partidários ou corporativos, esquecendo uma análise verdadeiramente séria e compreensiva do Orçamento e descurando uma apreciação global dos seus objetivos e da coerência das políticas a que se propõe.
Análises parciais, há-as para todos os gostos: a do deputado, pelo seu interesse partidário, a do contribuinte, pelos impostos que vai pagar, a do autarca, pelos fundos que não recebe, a do burocrata, pelas magras dotações do seu serviço, a do funcionário, pelo diminuto aumento do salário, a do sindicalista, pela repercussão nos acordos colectivos, a do agente cultural, pelas escassas verbas para as artes, e a do defensor de mais Estado, pelo não aumento da despesa.
Uns analisam-no pela receita, outros pela despesa, quase todos pelo défice, esquecendo que este é um simples efeito.
Discutem-se as verbas para a investigação, que são baixas, mas não há uma palavra sobre o número de patentes ou produtos que originam.
E, como cada um toma sempre a parte pelo todo, o orçamento é bom, sofrível ou mau consoante o seu problema pessoal ou corporativo é mais ou menos considerado ou ignorado.
Na rádio e na televisão privilegia-se o espectáculo: convidam-se muitos, o que faz que ninguém se explique. E quanto mais se atropelam no falar, mais o espectáculo foi vivo e o show resultou. A análise é tanto mais conseguida quanto mais se enfatiza que não há dinheiro para um serviço de saúde para animais de companhia, um desaforo, ou para uma boa estadia de aves migratórias, lobos e javalis, um atentado aos direitos da vida selvagem...
E no meio deste entretém, não se fala no essencial. E o essencial é saber até que ponto o Orçamento ajuda ao crescimento económico, única forma de assegurar melhor protecção social ou, ao contrário, contribui para financiar tarefas em duplicado, pagar actividades sem objectivos conhecidos ou úteis, cobrir serviços que, funcionando em circuito fechado, têm nas prestações recíprocas a sua única razão de existir, ou para fomentar a procura sem olhar à oferta.
Afinal, para muita opinião publicada o Orçamento é apenas uma via para tornar o país num sem fim de corporações de cidadãos Estado-dependentes.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico
