Porque é que Portugal teima em fazer mais, ao invés de melhor?

Publicado a

Portugal tinha, em 2024, mais de 1,5 milhões de empresas ativas. Nesse ano, e segundo dados do INE, foram criadas no país 246 mil empresas. No tecido empresarial nacional, não é novo o facto de a grande maioria destas organizações serem Pequenas e Médias Empresas (PME). Ao longo dos últimos anos as evidências mostram ainda que cerca de metade das que são criadas não chegam aos três anos de vida.

Por outro lado, Portugal conta com algumas – poucas – grandes empresas: são cerca de 1000 as classificadas como ‘grandes’, o que mostra bem a desproporção. EDP, Sonae, Galp ou Jerónimo Martins são significativos contribuidores para a economia nacional – a título de exemplo, o Grupo Sonae é o maior empregador do país, e é responsável por mais de 3% do PIB nacional, mostravam dados de um estudo da Nova SBE. Ou seja, uma única empresa é responsável por 4,8% dos postos de trabalho do setor privado.

Num país com a dimensão de Portugal, há algo de profundamente perturbador nestes números, e esse facto leva-me sempre à mesma pergunta. Por que razão teimamos em fazer mais ao invés de fazer melhor, juntos?

Nos últimos anos, a apologia do ecossistema empreendedor acabou por potenciar o aparecimento de muitas empresas novas – mas poucas vezes se fala do seu desaparecimento. Criar uma empresa parece muito apelativo, mas as dificuldades que lhe estão associadas – sobretudo num país com o grau de burocracia e impostos como o nosso tem – são, demasiadas vezes, ignoradas pelos empreendedores. E, por essa razão, são poucos os que passam de empreendedores a empresários.

Espantamo-nos quando o mundo reconhece a qualidade dos sapatos italianos, do vinho francês ou da indústria mecânica alemã, mas esquecemo-nos de que estes países fizeram algo que nós, enquanto sociedade e, até, enquanto empresários, temos dificuldade em fazer: juntarmo-nos para conquistar. Porque quando não temos dimensão – que não temos - , talvez seja melhor pensar em ser grande de outra forma.

Não é por acaso que as empresas nacionais com mais anos e maior dimensão são também aquelas que não têm tido medo de arriscar, de comprar concorrentes, de fazer parcerias, de pensar além-fronteiras.

A verdade é que temos, em Portugal, uma mentalidade que ainda penaliza a ambição. Ficamos irritados quando ouvimos Cristiano Ronaldo dizer que quer continuar a conquistar prémios ou bater recordes; indignámo-nos de cada vez que José Mourinho se autoelogiou (quando tinha razões para o fazer); desprezamos Tony Carreira pelo tipo de música que cria, ignorando que enche salas de espetáculo no país e fora dele; dizemos mal de José Saramago, nosso único Prémio Nobel, porque discordávamos da sua orientação política. Também não apreciamos empresas grandes que têm sucesso, porque elas nos lembram de tudo o que não conseguimos atingir, do “potencial inalcançado”. Criticamos os empresários, acusamo-los de esconderem algo, ou de terem interesses escondidos, e ficamos genuinamente enfurecidos quando não conseguimos apontar-lhes falhas, nos casos em que acontece (e não são poucos).

Na verdade, somos um país tão movido a uma pequenez tão evidente de pensamento, que nem nos ocorre que podemos juntar-nos com o vizinho do lado para fazer melhor e realizar essa ambição que, dizem tantos, continuamos a ter. Vemos, por outro lado, marcas a fazer o mesmo que outras marcas, empresas a fazer o mesmo que outras empresas e organizações a falhar consistentemente, porque não há mercado que aguente tanta microempresa, mas achamos tudo normal – “é o ecossistema empreendedor”.

Espantamo-nos, porém, com a economia que não descola, com a produtividade que não aumenta, com os salários que não sobem, com a competitividade que vai comparando mal com os nossos pares europeus. E no meio de todo o drama que gostamos de fazer – às vezes levamos a questão do fado demasiado a sério – não nos apercebemos de que temos sido movidos a algo muito perigoso para a economia e até para a vida em sociedade: inveja.

E enquanto deixarmos que ela nos tolde o pensamento, o potencial de Portugal vai ser sempre inalcançado.

Diário de Notícias
www.dn.pt