Portugal está a ficar demasiado caro para os portugueses?
Portugal conseguiu, na última década, algo que durante muito tempo almejou: tornar-se um país desejado. Somos procurados por turistas, investidores, novos residentes e reformados. Lisboa e Porto ganharam visibilidade internacional, o turismo bateu recordes e Portugal surge regularmente nos rankings de países mais seguros e atrativos para viver. É uma história de sucesso, mas, como acontece muitas vezes, o sucesso tem um preço.
Quanto mais desejado se torna um território, maior é a pressão sobre aquilo que não pode ser importado: o próprio território. A procura aumenta, mas a oferta de habitação reage lentamente. O resultado está à vista: comprar ou arrendar casa está a tornar-se incomportável para uma parte crescente da população, sobretudo nos grandes centros urbanos e nas zonas de maior pressão turística.
Contudo, talvez estejamos a formular mal o problema. Portugal não está necessariamente caro – está é demasiado caro para o rendimento dos portugueses. Uma casa de 500 mil euros pode ser inacessível para uma família que depende de dois salários médios, mas perfeitamente razoável para quem chega de Paris, Londres ou Nova Iorque. Aliás, o problema não se limita à habitação. Com efeito, do mesmo modo que um apartamento, o mesmo restaurante ou o mesmo serviço podem ser simultaneamente caros e baratos, tudo dependendo das possibilidades de quem compra.
Ora é exatamente aqui que reside o verdadeiro paradoxo. Conseguimos valorizar Portugal mais depressa do que conseguimos valorizar o trabalho dos portugueses. O país aproximou os seus preços dos padrões europeus sem conseguir fazer o mesmo com a produtividade e os salários. É certo que os salários reais têm crescido nos últimos anos: desde 2023 assistiu-se a um crescimento da ordem dos 7%, mas o custo da habituação subiu 28% no mesmo período.
Ao contrário de alguma opinião oriunda do leque político-partidário mais à esquerda, a solução não pode passar por tornar Portugal menos atrativo. Seria um erro responder ao sucesso do turismo afastando turistas ou ao interesse dos investidores dificultando o investimento. Precisamos, isso sim, de aumentar a oferta de habitação, simplificar licenciamentos, recuperar imóveis devolutos, melhorar os transportes e criar novas centralidades.
Mas precisamos, sobretudo, de atacar a outra metade da equação: aumentar de forma significativa a produtividade e, por essa via, os salários reais. Não podemos continuar a discutir o custo de vida olhando apenas para os preços e esquecendo os rendimentos. Portugal continua a apresentar níveis de produtividade claramente inferiores aos dos países europeus com que se compara e essa diferença acaba inevitavelmente por refletir-se nos salários.
Sem empresas mais produtivas, mais capitalizadas, mais inovadoras, mais internacionalizadas e capazes de criar maior valor acrescentado, será difícil pagar melhores salários de forma sustentada. Sem uma administração pública menos burocratizada, um sistema judicial mais célere e uma politica fiscal mais favorável, o tecido económico dificilmente conseguirá gerar mais riqueza de forma consistente. O problema não se resolve apenas tornando as casas mais baratas – acima de tudo, resolve-se tornando o trabalho dos portugueses mais valioso.
É por isso que medidas destinadas apenas a aumentar o rendimento disponível, embora possam ser socialmente necessárias, não resolvem o problema estrutural. Se os salários crescerem sem um aumento correspondente da produtividade, parte desse ganho tenderá a ser absorvida pelos preços. O verdadeiro desafio é fazer crescer simultaneamente a capacidade das empresas para criar valor e a capacidade dos trabalhadores para participar nesse valor.
Durante décadas quisemos que Portugal fosse mais valorizado e conseguimos. Agora temos de garantir que os portugueses também beneficiam dessa valorização. Porque o verdadeiro problema do nosso país não é estar a ficar caro. É os portugueses continuarem demasiado pobres para o Portugal que ajudaram a valorizar.
