Portugal na nova geografia industrial da Europa
Nas últimas décadas, o mapa industrial europeu tem permanecido relativamente estável. A Alemanha, Benelux e norte de Itália concentravam cadeias de valor, capital, tecnologia e energia competitiva. Na última semana, surgiram alguns dados que sugerem que esta realidade pode estar a mudar. Um artigo do reputado jornal Financial Times chamou a atenção para novas projeções numa publicação de Setembro do Bruegel, um think tank económico sediado em Bruxelas, e que mostram uma alteração relevante na localização do investimento europeu em tecnologias limpas. A Alemanha continua a dominar o investimento acumulado, com €29,8 mil milhões desde 2016.Mas nos últimos 5 anos (2021), Hungria e Espanha atraíram, respetivamente, €16,5 mil milhões e €10 mil milhões de investimento concluído ou em curso, ultrapassando a Alemanha. A geografia industrial europeia não mudou ainda, é a geografia do novo investimento que está a começar a mudar – e Portugal pode fazer parte desta nova rota.
Uma primeira inferência sobre este tema é que a energia voltou a ser política industrial. O fim do gás russo barato atingiu particularmente o modelo alemão, enquanto a disponibilidade de eletricidade renovável competitiva começa a favorecer outras geografias. Espanha é um exemplo: desde 2018, a sua indústria transformadora cresceu três vezes mais rapidamente do que a média da Zona Euro e Valência foi escolhida para uma fábrica de baterias da Volkswagen de €3 mil milhões. E o Bruegel considera que o nosso país está entre os países que podem beneficiar desta deslocação. Tem eletricidade crescentemente renovável, uma base industrial exportadora e começam a surgir investimentos em baterias, veículos elétricos e componentes eólicos.
Depois, é preciso salientar que a Europa entrou numa nova competição pela indústria. A União Europeia pretende aumentar o peso da indústria transformadora de cerca de 14% para 20% do PIB até 2035. Mais de €118 mil milhões foram investidos desde 2016 em tecnologias limpas, com Espanha e Hungria a concentrarem hoje os maiores investimentos em curso. Mas não basta atrair fábricas e capital: a Europa precisa também de controlar tecnologia, propriedade intelectual e cadeias de valor. Industrializar não pode significar apenas produzir na Europa tecnologia que é apenas controlada noutras geografias.
Uma terceira reflexão tem a ver com salários e fiscalidade, fatores que deixarão de explicar, por si só, a localização industrial. Energia abundante e competitiva, redes elétricas, armazenamento, licenciamento e capacidade de atrair capital pesarão cada vez mais. A transição energética poderá, paradoxalmente, deslocar parte da vantagem industrial do centro para a periferia europeia.
Por fim, dizer também que Portugal tem aqui uma oportunidade de transformação concreta. No nosso país, em 2025, e de acordo com os números disponíveis, as fontes limpas domésticas satisfizeram 68% da procura de eletricidade; a capacidade solar cresceu de 1 para 6GW desde 2020. A Volkswagen está a adaptar a fábrica de Palmela à produção de um novo veículo elétrico, enquanto que a CALB (China Aviation Lithium Battery) iniciou em Sines um investimento próximo de €2 mil milhões em baterias. O desafio do país é transformar energia renovável em produção, investimento e exportações. Além de produzir eletricidade limpa, é preciso também incorporá-la em bens e tecnologia produzidos em Portugal. Se a energia estiver realmente a redesenhar o mapa industrial europeu, esta é uma oportunidade que não podemos desperdiçar.
