Portugal: o paradoxo entre o país do sol e a nação que fica para trás

Margarida Vaqueiro Lopes

Editora-Executiva do Diário de Notícias

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Esta semana, numa conferência organizada pelo Diário de Notícias dedicada ao tema de fusões e aquisições, a análise que se se fez não surpreendeu: Portugal tem demasiadas pequenas e médias empresas – que, graças a uma tempestade de dificuldades, “não conseguem explorar todo o seu potencial”, referiu José Maria Brandão de Brito, secretário de Estado do Orçamento – e desdenha do trabalho e do sucesso das grandes.

Aliás, têm-se intensificado, ao longo dos últimos anos os discursos contra os “grandes lucros” (nunca se percebeu exatamente a partir de quando um lucro é grande ou demasiado) ou “as grandes riquezas” (idem), com propostas de taxar cada vez mais quem consegue criar alguma riqueza num país onde ela não abunda.

O peso na criação de emprego das PME nacionais é significativamente superior, quando comparado com outros países europeus – como a Alemanha – e isso gera novo problema. As PME (e, no caso português, as micro) pagam, por norma, salários menores e são menos competitivas que as grandes empresas, porque não conseguem competir em termos de escala. Nem em compras, nem em retenção de talento, nem em vendas.

Durante muito tempo criou-se a ideia de que todos devemos ter o nosso próprio negócio. A entrada de muito dinheiro estrangeiro, com “fome” de investir em Portugal, a vinda de eventos como a Web Summit para Portugal e o estímulo de “um ecossistema empreendedor” atirou, sobretudo ao longo da última década, o país para este lugar em que ser empreendedor é visto como a única forma de viver e mostrar alguma ambição.

Mas os números estão aí e contam a história: continuamos a ser um país pouco competitivo, em praticamente todas as indústrias. Mesmo naquelas em que nos reconhecem qualidade internacional, como o caso dos têxteis e do calçado. As empresas pequenas não chegam para dinamizar a economia e é com as grandes que conseguimos competir – mesmo que sejam, não raras vezes, diabolizadas. Esquecendo, talvez, de que só é possível ter um país melhor para todos com uma economia dinâmica e forte. O que não se consegue apenas com startups e empresas unipessoais.

Continuamos, também, a ser dos países da OCDE com uma maior carga fiscal sobre o trabalho e temos visto a capacidade redistributiva a diminuir – os dados são do Taxing Wages 2026, que foi divulgado esta quarta-feira. No documento, a OCDE deixava o já repetido alerta de que uma carga fiscal elevada “tende a reduzir os incentivos ao trabalho e à contratação”. O que, inevitavelmente, impacta o dinamismo do mercado laboral.

Dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos mostram que as famílias portuguesas têm um rendimento médio mensal por adulto que corresponde a apenas 61% da média da União Europeia. Portugal é o 9.º país com rendimentos mais baixos da UE, mostrava o estudo Rendimentos e Desigualdades, publicado no final do ano passado.

Também em 2025, a OCDE dava conta de que Portugal tinha sofrido dos maiores recuos em termos de rendimentos familiares entre os países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico – a explicação? O regime fiscal.

No entretanto, o contexto internacional coloca Portugal ainda mais vulnerável aos aumentos generalizados de preços e dificuldades logísticas que têm assolado todos os países que, de uma forma ou outra, dependem de relações económicas multilaterais. Uma imagem que parece absolutamente dissociada daquela que empresários e investidores, sobretudo estrangeiros, continuam a projetar de Portugal: um país onde vale a pena continuar a abrir negócios (de luxo), a construir empreendimentos (de luxo, pelo menos para quem cá trabalha), e a viver com sol durante 300 dias por ano. Talvez esse país exista, efetivamente, para quem o pode pagar – não são a grande maioria dos portugueses, ainda que haja muitos portugueses entre eles.

Por atingir, no entanto, ficam ainda alguns objetivos um bocadinho mais singelos, mas talvez igualmente importantes: ter um SNS que funcione – é quase risível que uma ministra anuncie com tal pompa o reforço de 50 milhões de euros para resolver problemas que são de dimensão estratosférica; ter escolas públicas que permitam que o elevador social não continue colado ao chão; ter uma Justiça célere; ter a grande maioria da população com uma vida digna.

Portugal parece, cada vez mais, o país de sonho para todos aqueles que não nasceram cá, não ganham um salário em Portugal e, se tudo correr bem, nunca precisarão de recorrer a um hospital se não for com uma pulseira vermelha (muito urgente) no pulso. Para os outros – os que não conseguem que o salário chegue, os que esperam meses por uma consulta, os que trabalham para tentar, simplesmente, sobreviver – Portugal continua a ser, infelizmente, um país de sonhos adiados.

Sem uma mudança estrutural que permita crescer, reter talento e criar riqueza de forma sustentável, Portugal arrisca permanecer exatamente onde está: um país onde o sol brilha para muitos, mas onde demasiados continuam a viver na sombra de oportunidades que nunca chegam.

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