Portugal vive em dívida alimentar
Menos visível nos noticiários do que a financeira, mas igualmente perigosa. O trabalho da jornalista Margarida Vaqueiro Lopes, esta semana no Dinheiro Vivo, indica que Portugal nunca importou tantos produtos agrícolas. A autossuficiência de Portugal nos cereais é inferior a 20%; está nos 50% no peixe; nos 50% na carne de bovino; nos 70% na fruta.
Somos completamente autossuficientes (e exportadores) nos ovos, nos vegetais e no azeite (entre outros), mas os dados apontam uma tendência preocupante. Os portugueses comem cada vez mais à conta do que os outros países produzem. E há décadas que empurramos esse problema para fora da nossa vista, como se fosse um assunto menor, coisa de gente do campo, um pormenor sem importância para quem vive (e quer viver) nas cidades e acredita que os alimentos se colhem nas prateleiras do supermercado ou digitalmente, na app de entrega.
Não foi sempre assim. Houve um tempo, ainda dentro da memória da geração dos meus pais, em que Portugal produzia a esmagadora maioria do que consumia. Não vivíamos num paraíso agrícola, longe disso – a produtividade era baixa, encurralada entre o minifúndio no Norte e o latifúndio no Sul.
Até podíamos ter mecanização insuficiente na lavoura, mas havia uma relação direta entre a terra e a mesa que hoje temos dificuldade em ver.
A viragem começou a desenhar-se nos anos 198O. Não foi por acaso.
A década da adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), celebrada com champanhe e discursos sobre modernização, trouxe fartos fundos europeus e subsidiação para jipes, mas também uma política agrícola comum (PAC) pensada para equilibrar mercados de países com estruturas produtivas muito diferentes da nossa.
A má utilização de fundos, a incapacidade nacional de se adaptar a desafios externos ou o simples efeito da PAC empurrou milhares de pequenos agricultores portugueses para fora do negócio. Quem não conseguia competir com os preços e os volumes de França, da Alemanha ou de Espanha, simplesmente desistiu. Vendeu a terra, ou pior, deixou-a ao abandono e foi para a cidade. Ou emigrou.
O resultado, quatro décadas depois, está à vista: produtos que historicamente sempre soubemos produzir bem vêm cada vez mais do exterior. E o mais grave é que este processo não parou – acelerou. Cada nova crise, cada novo período de seca, cada choque nos mercados internacionais de matérias-primas, expõe a mesma fragilidade: um país que depende de navios e camiões, de uma enorme logística a combustão que vem de longe para pôr comida à mesa.
Isto é normal? Para muitos países esta é apenas uma das faces da economia globalizada, em que cada país se especializa no setor em que é mais competente e compra fora o resto.
O problema é que este argumento só é confortável até ao momento em que tivermos prateleiras vazias a entrar-nos pelos olhos adentro. A segurança alimentar não é um luxo ideológico, é uma questão de soberania. Um país que não controla o que come não controla o seu próprio destino.
E o que fizemos nós, entretanto, para inverter a tendência? Muito pouco. Os fundos europeus para a agricultura foram, durante anos, mal direcionados, mais preocupados em cumprir metas de execução e métricas de Bruxelas do que em construir uma estratégia nacional de produção. O 'giracídio' não é anedota, foi um facto. Ocorreu de facto em várias zonas do país, quando os agricultores plantavam e deixavam morrer campos inteiros de girassóis porque isso trazia um subsídio maior do que produzir os vegetais tradicionais e reconhecidos da região.
Investiu-se tarde no regadio, numa altura em que a seca já não é exceção, é regra. Envelheceu-se o setor sem se preparar a substituição: a idade média de quem trabalha a terra em Portugal é hoje das mais altas da Europa, e os jovens que poderiam pegar nas explorações preferem, com razão, empregos com horários e salários mais dignos.
Não há aqui vilão único. Há uma sucessão de governos, de vários quadrantes, que nunca trataram a agricultura como um pilar estratégico. Uma política à medida de uma sociedade que preferiu, ainda que tacitamente ou às cegas, importar bem-estar em vez de investir em capacidade produtiva. E há uma Europa que, com as melhores intenções, desenhou políticas pensadas para as grandes potências agrícolas do continente, deixando aos pequenos países periféricos o papel de consumidores e agricultura gourmet.
A pergunta que devíamos fazer não é se isto é reversível – provavelmente não totalmente, e seria ingénuo fingir o contrário. A pergunta é se estamos dispostos, finalmente, a tratar a dependência alimentar com a mesma seriedade com que tratamos a dependência energética ou a dívida pública. Porque uma coisa é certa: quando a próxima crise chegar, e chegará, não vai pedir licença. E um país que não produz o que come poderá ser forçado a descobrir, da forma mais dura, o preço real dessa comodidade.
