PRR: E depois do adeus?

Luís Tavares Bravo

Economista. Presidente do International Affairs Network

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O programa europeu NextGenerationEU aproxima-se do fim. Criado para responder à crise pandémica, tornou-se um dos maiores instrumentos de investimento da história europeia. Segundo a Comissão Europeia, até ao final de agosto de 2026 tinham sido desembolsados 440 mil milhões de euros, dos quais 17,23 mil milhões destinados a Portugal, sobretudo para financiar investimentos e reformas estruturais. Mas a questão decisiva já não é apenas quanto foi gasto, mas o que ficará deste esforço de investimento sem precedentes, cujos efeitos económicos deverão prolongar-se muito para além do encerramento do programa.

Uma primeira reflexão é que o PRR representou uma oportunidade extraordinária para Portugal. Com uma dotação de 21,9 mil milhões de euros, permitiu financiar investimentos em saúde, habitação, infraestruturas, digitalização e empresas, aliviando a pressão sobre as contas públicas. O Banco de Portugal estimou que o programa poderia elevar o nível do PIB entre 1,1% e 2% até 2026, relativamente a um cenário sem PRR. Um contributo económico relevante, embora ainda sujeito a avaliação definitiva.

Uma segunda conclusão é que executar fundos não significa necessariamente transformar a economia. O mesmo Banco de Portugal estimou um aumento de cerca de 1% do produto potencial no longo prazo. Mas concretizar esse efeito depende da qualidade dos investimentos e das reformas. Construir infraestruturas, modernizar serviços e apoiar empresas produz benefícios; o verdadeiro retorno, porém, mede-se na produtividade, na inovação e na capacidade de gerar valor acrescentado.

Por fim, importa refletir sobre um futuro com estratégia própria de país. O fim do PRR coincide com uma transformação dos motores de crescimento europeu. Inteligência Artificial, defesa, eletrificação e investimento industrial deverão ganhar protagonismo. Portugal precisa de aproveitar este novo ciclo, mobilizando capital privado e integrando as suas empresas em cadeias de valor mais sofisticadas. Num contexto de taxas de juro mais elevadas e maior exigência orçamental, dificilmente poderá continuar a depender de financiamento extraordinário europeu para sustentar o investimento.

O PRR foi uma oportunidade histórica. Mas o seu sucesso não se medirá apenas pelos milhões executados até 2026, e que foram de facto muito importantes para uma economia pequena como a nossa. Terá de ser medido agora pela capacidade de Portugal continuar a crescer por si próprio quando esses fundos deixarem de chegar – até porque a geopolítica europeia a isso o poderá exigir.

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