Quando os dirigentes são um passivo
Num dos capítulos do livro Principles of Corporate Finance (Princípios de Finanças Empresariais, na tradução portuguesa), que se tornou uma referência na teoria e na prática da gestão financeira, os seus autores, professores Richard Brealey, da LBS, e Stewart Myers, do MIT, deixavam a interrogação: serão as administrações um passivo? Davam como ilustração uma empresa petrolífera do Texas, cujo valor bolsista era persistentemente inferior ao valor de mercado das suas reservas de crude, e concluíam ironicamente que assim era mais vantajoso comprar petróleo em Wall Street do que no Texas. De facto, muitas administrações, pela suas acções ou omissões constituem um claro passivo para as empresas.
A interrogação de Brealey e Myers pode, sem abuso, ser alargada a outras classes de gestores, governantes, políticos, dirigentes associativos, quando estratégias mal pensadas, dissipação de recursos, investimentos ruinosos, constante incumprimento de objectivos se traduzem em continuadas perda de valor, prestígio ou aderentes para as entidades que representam.
Associações sindicais marcaram uma greve geral para o próximo dia 3 de junho, desse modo reclamando demonstrar uma grande manifestação de força contra a lei laboral. Uma força ilusória, desde logo pela data, convite oportunista a uma “ponte” de 5 dias, mas sobretudo pela debilidade que a continuada perda de filiados vai evidenciando. A taxa de sindicalização, que já atingiu quase 70% dos trabalhadores, tem vindo a decair ano a ano. Segundo os mais recentes dados oficiais, era de 9,2% em 2014, tendo baixado para 7% em 2024 (13,9%, incluindo o sector público). Uma evolução que mostra bem como a acção sindical anda longe das aspirações dos trabalhadores, incapaz de reconhecer as mudanças no mundo do trabalho, teimando num discurso do passado, por completo descolado da realidade do presente.
Uma economia competitiva exige sindicatos fortes que procurem no compromisso e não na rua a concretização dos seus interesses. A perda de filiados indica que os trabalhadores não se revêem nas associações que dizem representá-los.
“Pelo fruto se conhece a árvore”, já dizia S. Mateus. Esta seria uma reflexão que as direcções sindicais deveriam fazer, antes que os filiados se interroguem se os seus dirigentes não se tornaram já um passivo.
Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico
