Quando os juros sobem

Luís Tavares Bravo

Economista. Presidente do International Affairs Network

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Durante dois anos habituámo-nos à ideia de que o ciclo de subida das taxas de juro tinha terminado. Mas o cenário voltou a mudar. O BCE acaba de aumentar novamente as taxas, enquanto a Reserva Federal também regressou às subidas. E não são casos isolados: até 11 de setembro, entre quase 90 bancos centrais analisados pelo BNP Paribas, 25 tinham reduzido taxas este ano, mas outros 25 tinham aumentado. O dinheiro pode estar a voltar a ficar mais caro. 

 Uma primeira reflexão é que os bancos centrais enfrentam hoje um dilema diferente do de 2022. Na Zona Euro, a inflação subiu para 3,3%, mas excluindo energia permanece em 2,2%. Subir taxas não produz petróleo nem reduz o preço da energia. Mas BCE e Fed não podem ignorar o risco de um choque temporário se transmitir aos restantes preços, salários e expectativas. O desafio é impedir efeitos de segunda ordem sem travar desnecessariamente a economia. 

 Uma segunda reflexão é que talvez tenhamos de abandonar a expectativa de um regresso rápido ao dinheiro quase gratuito da década passada. Crescimento resiliente, pressões inflacionistas e maior procura de capital podem manter as taxas estruturalmente mais elevadas. Nos EUA, o BNP estima atualmente uma taxa de juro neutral entre 3,25% e 4,25%. Famílias, empresas e Estados terão de adaptar decisões de consumo, investimento e endividamento. 

 Uma terceira reflexão é que juros mais altos voltam a premiar a prudência. E Portugal é um bom exemplo. A Fitch acaba de elevar o rating da República para A+, destacando a consolidação das contas públicas e a redução da dívida. A agência prevê que esta desça de 89,7% do PIB em 2025 para 82,9% em 2028. Ainda assim, continuará bem acima da mediana dos países com rating A. 

 Num mundo de dinheiro mais caro, continuar a reduzir dívida não é apenas disciplina orçamental: é uma apólice contra a próxima crise. Menos dívida significa menor exposição à subida dos juros e maior margem para responder a choques futuros. Mas consolidação sem crescimento também não chega. Portugal precisa de aumentar produtividade, investimento e PIB potencial, para que a redução do peso da dívida resulte não apenas de contenção orçamental, mas de uma economia capaz de crescer mais. 

 Durante uma década aprendemos a viver num mundo em que o dinheiro quase não tinha preço. Se esse mundo terminou, Portugal precisa de duas defesas: contas públicas sólidas para resistir às crises e maior produtividade para continuar a crescer entre elas.

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