Quando todos perdem

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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Portugal acordou, nos últimos dois dias, mais silencioso. Na quarta-feira foi dia de greve geral, marcada – curiosamente – para a véspera de um feriado nacional e a data não deixou de merecer reparos generalizados.

É a segunda greve geral no espaço de oito meses, com o mesmo assunto a motivá-la, ainda que, desta vez, sem o apoio da UGT.

Numa altura em que se aproxima o final do ano letivo, milhares de alunos tiveram constrangimentos nas suas provas ModA (Monitorização das Aprendizagens); outros ficaram sem aulas necessárias para a preparação dos exames nacionais; mais de metade dos voos do aeroporto de Lisboa foram cancelados; milhares de consultas e atos médicos foram adiados… Tudo questões mais do que válidas, mas que nos têm de fazer pensar seriamente sobre o que está em causa.

Naturalmente, a greve é um direito consagrado na Constituição e todos devemos defendê-lo, queiramos ou não utilizá-lo – até porque estamos no direito de fazer uma coisa ou outra. Esta segunda paralisação, que levou milhares à rua para se manifestarem contra o pacote laboral, no entanto, recolheu menos apoio que a de há uns meses, não apenas pela questão da data, já referida anteriormente (o facto de haver quem tenha passado o dia de greve na praia, afirmando-o tranquilamente nas televisões, não ajudou à perceção) – mas também porque ainda não é clara a alternativa apresentada ao pacote laboral que está em cima da mesa.

É certo que este pacote laboral tem vários problemas, sendo o principal, para mim, a ambição meio desproporcionada. Querer introduzir mais de 100 alterações, numa lei que não sofre mexidas há anos, é despropositado e muito pouco sensato. Mas também é verdade que Portugal tem, quando comparado com os seus congéneres europeus, uma das leis laborais mais restritivas e inflexíveis, o que dificulta a vida a todos.

"É verdade que é preciso flexibilizar o mercado de trabalho nacional, cuja lei está ajustada a uma realidade que já não existe"

É também verdade que há medidas que são escandalosas para o século XXI, nomeadamente a permissão do outsourcing em situações de despedimento ou a reversão da facilidade de fazer teletrabalho, para quem tem filhos pequenos – se tivermos em conta que estamos no meio de uma crise energética, habitacional e financeira, este ponto é ainda mais absurdo.

No mesmo sentido, a questão do horário flexível já nem devia ser um tema – a era industrial já passou, e até os cientistas já vieram dizer e repetir que é mais rentável permitir, sendo conciliável com a atividade da empresa em questão, que a pessoa trabalhe consoante o seu ritmo circadiano.

Por outro lado, também é verdade que é preciso flexibilizar o mercado de trabalho nacional, cuja lei está ajustada a uma realidade que já não existe e que tem perpetuado décadas de salários baixos e pouca produtividade. E é possível chegar a um entendimento, se houver vontade de parte a parte, que é coisa que tem faltado.

Por isso, não admira também que depois haja divergências gritantes entre os números de adesão à greve libertados pelos sindicatos e os que o Governo divulga. A verdade é que, em Portugal, as greves nunca tiveram os impactos que conseguiram noutros países, o que se prende com razões históricas e culturais e tantas outras variáveis.

Se esta paralisação vai afetar mais o Governo ou todas as pessoas que viram adiadas questões fundamentais - incluindo pais que perderam dias de trabalho porque, mais uma vez, não há escolas - vai ser difícil de saber. Para já, saímos todos a perder com esta negociação, que nem acontece, nem deixa de acontecer, o que só aumenta o cenário de incerteza, insatisfação e desalento de um país que precisa de motivos para conseguir olhar com mais esperança para o futuro.

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