Que Europa depois do 'Relatório Draghi'?
Dois anos depois de Mario Draghi ter alertado para o risco de declínio económico europeu, as últimas leituras sobre o desempenho europeu parecem dar-lhe razão: a União Europeia deverá crescer apenas 1,4% em 2026, cerca de metade do ritmo dos Estados Unidos. No entanto, parece existir uns dados que suportam a ideia que por trás desta estagnação, existem algumas reflexões importantes que sinalizam determinadas mudanças importantes na dinamização futura da economia do euro.
A primeira reflexão, é que a Europa poderá estar a começar a reagir. O programa de estímulos pós pandemia, o NextGenerationEU financiou infraestruturas energéticas, ferroviárias e digitais, ao mesmo tempo que a agenda para a competitividade ganhou maior espaço nas prioridades europeias. Segundo o Institut Montaigne, cerca de um terço das recomendações de Draghi já teria sido concretizado em junho de 2026. É ainda distante da transformação desejável pelo diagnóstico, mas é um sinal de progresso efetivo, e isso não pode ser ignorado.
Depois, a economia europeia pode estar a substituir gradualmente setores industriais em declínio por novas atividades de maior intensidade tecnológica, o que pode ser encorajador. A produção automóvel europeia permanece 30% abaixo da média anterior à pandemia, isto apesar do enorme crescimento dos veículos elétricos.
Em contrapartida, a produção de equipamentos informáticos cresce a um ritmo anual próximo de 40%, a das baterias aumentava 25% em julho e vários segmentos da Defesa registam subidas entre 20% e 50%. Também a Inteligência Artificial, a eletrificação e a segurança estão a criar motores industriais, enquanto a produtividade por hora trabalhada voltou, entretanto, a crescer perto de 1% ao ano segundo relatório recente do BNP Paribas.
Ou seja, a Europa continua a crescer pouco, mas a composição do seu crescimento pode estar a mudar para uma estrutura mais eficaz.
Por fim, vale a pena deixar uma reflexão sobre Portugal. O Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), ajudou a financiar modernização e objetivos de transição para uma nova economia, mais digital e valiosa, mas não é condição suficiente para que o país, só por isso, venha a conquistar um lugar relevante nas novas cadeias de valor.
É importante, agora, que exista capacidade de criar e apoiar as empresas a obter escala, qualificações, investimento privado e capacidade exportadora para aproveitar a procura europeia em tecnologia, energia e indústria. E isso implica que Portugal desperte para as variáveis cruciais para que se consiga posicionar nos setores que estão a despertar na Europa – os que garantem maior produtividade, maior criação de riqueza, e melhores salários.
Algumas destas variáveis passam pela fragilidade que existe ao nível do acesso à captação de capital de risco – que é muito residual no nosso país face ao resto da Europa – e, por exemplo, ao desenho de uma estratégia própria de crescimento comercial e de desenvolvimento de negócio para Portugal. Num contexto onde as regras do jogo da globalização mudaram bastante nos últimos anos, este é um trabalho que devemos começar a fazer: que estratégia comercial de país temos, para além da União Europeia?
Afinal, com Draghi ou sem, é importante agir sobre as novas variáveis geopolíticas, que são parte já das relações entre países, e do crescimento económico futuro das nações.
