Sociedade com propósito

Francisco Jaime Quesado

Economista e Gestor. Presidente da APM - Associação Portuguesa de Management

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Por ocasião de celebração dos 30 anos do início do Curso de Ciência Política no atual Instituto de Estudos Políticos – UCP, com a chancela de João Carlos Espada, algumas breves notas sobre o imperativo de termos uma agenda coletiva para a construção de uma sociedade com propósito. O pensamento de Karl Popper, que discutimos há 30 anos, está mais atual do que nunca – precisamos de apostar num sentido de inteligência coletiva que nos faça ter confiança na construção do futuro que aí vem.

 A essência desta sociedade com propósito tem de se centrar num conjunto de novas ideias de convergência, a partir das quais se ponham em contato permanente todos os que têm uma agenda de renovação do futuro. Importa acelerar uma cultura de risco na sociedade que mobilize um novo sentido de competência e de ambição. Foi essa a mensagem muito presente há 30 anos quando João Carlos Espada trouxe para a escola a importância de discutir uma nova forma de ser e estar, comprometida com uma agenda de propósito assumida por todos os que acreditam que o valor social não se define por decreto.

Na sociedade com propósito, a falta de rigor e organização nos processos e nas decisões, sem respeito pelos fatores tempo e qualidade já não é tolerável nos novos tempos globais. Não se poderá, a pretexto de uma lógica secular latina, mais admitir o não-cumprimento dos horários, dos cronogramas e dos objetivos. Não cumprir este paradigma é sinónimo de ineficácia e de incapacidade estrutural de poder vir a ser melhor. Importa por isso uma cultura estruturada de dimensão organizacional aplicada de forma sistémica aos atores da sociedade civil. Há que fazer da capacidade organizacional o operador de modernidade para uma sociedade que se quer diferente.

Pretende-se também uma sociedade aberta  mais equilibrado do ponto de vista de coesão social e territorial. A crescente (e excessiva) metropolização do país torna o diagnóstico ainda mais grave. A desertificação do interior, a incapacidade das cidades médias de protagonizarem uma atitude de catalisação de mudança, de fixação  de competências, de atracção de investimento empresarial, são realidades marcantes que confirmam a ausência duma lógica estratégica consistente. Não se pode conceber uma aposta na competitividade estratégica do país sem entender e atender à coesão territorial, sendo também este um fator crítico de qualificação e modernização da nossa sociedade.

 A sociedade civil portuguesa tem uma agenda desafiante pela frente. A aposta na excelência, na sua diferença e no seu sucesso, é o resultado duma agenda estratégica que se pretende voltada para um futuro permanente. Apostar na excelência deve constituir um compromisso permanente na procura do valor, da inovação e da criatividade como fatores críticos da mudança. Os bons exemplos devem ser seguidos, as boas-práticas devem ser percebidas, o caminho tem de ser o da distinção e da qualificação. Na sociedade com propósito sobrevive quem consegue ter escala e participar, com valor, nas grandes redes de decisão.

Num país que se quer voltado para o futuro, as empresas, as universidades, os centros de competência têm de protagonizar uma lógica de cooperação positiva em competição para evitar o desaparecimento. O desafio da sociedade com propósito tem de ser reforçado. Fazer da nossa sociedade a oportunidade desejada dum país onde o conhecimento e a criatividade sejam capazes de fazer o compromisso nem sempre fácil, entre a memória dum passado que não se quer esquecer e um regresso a um futuro que não se quer perder.

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