UE e EUA: o acordo possível, que não é bom para Portugal

Nuno Botelho

Presidente da Associação Comercial do Porto

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Ao fim de ano e meio de hesitações, contradições e ameaças mútuas, parece estar finalmente fechado o acordo comercial entre União Europeia e EUA. Faltando apenas ser aprovado pelo Parlamento Europeu, o compromisso mantém os termos já definidos no acordo-quadro de julho de 2025, com uma tarifa geral de 15% para os produtos europeus e um conjunto amplo de especificidades de um lado e de outro do Atlântico.

Foi, provavelmente, o acordo possível dadas as circunstâncias que marcaram este processo. Por um lado, a UE teve de lidar com a instabilidade quase permanente na Administração Trump e o ultimato que apontava para 4 de julho como data-limite para a negociação. Por outro, teria sempre de agir de forma pragmática, evitando a guerra tarifária e privilegiando a estabilidade de uma relação económica que vale 30% do comércio global.

A racionalidade imperou – e, ainda bem – do lado europeu, mas isso não impede de reconhecer que, para consumo interno, as notícias não parecem ser animadoras. Advinham-se tempos (ainda) mais difíceis para as empresas portuguesas.

A esse propósito, importa recordar o estudo que a Associação Comercial do Porto apresentou no final do ano passado, alertando para os riscos que a vaga protecionista americana poderia trazer para a economia nacional. Num cenário de tarifa-base a 15%, que é precisamente aquele que se coloca neste acordo, o estudo antecipava impactos de 370 milhões de euros nas exportações, quebras de produção na ordem dos 750 milhões por ano e 4500 a 6000 postos de trabalho afetados, com a região Norte a concentrar cerca de metade das perdas de emprego potenciais.

São números que não podem deixar ninguém indiferente e que comportam riscos reais em muitos setores. Se a metalurgia, a metalomecânica ou cortiça beneficiam de isenções totais ou parciais neste acordo, outras áreas como o têxtil, mobiliário ou agroalimentar vão ser largamente afetadas. Além disso, como os efeitos na Europa serão assimétricos, a tendência será para penalizar mais as economias de menor dimensão, como é o caso da portuguesa.

Apesar de tudo, há uma vantagem evidente neste acordo: o fim da incerteza. A partir daqui, as empresas conhecem as regras do jogo e dispõem de um quadro de atuação previsível para o futuro. Ao mesmo tempo, a Europa evita chocar de frente com o seu principal aliado comercial e traz a normalidade possível às relações transatlânticas. Não é win-win, mas nem tudo é mau.

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