Uma coruja em Frankfurt

Nuno Vinha

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Quando Christine Lagarde assumiu a presidência do Banco Central Europeu, em novembro de 2019, herdou uma instituição marcada pela sombra de Mario Draghi. O italiano deixara o cargo com o estatuto de salvador do euro, graças ao famoso “whatever it takes” (faremos tudo o que for preciso) e o subsequente “combate” com os membros do seu conselho executivo que queriam menos apoios aos países do sul da Europa.

A francesa chegava de Washington, depois de anos à frente do Fundo Monetário Internacional, sem o perfil clássico de banqueira central e sem o mesmo capital simbólico junto dos mercados.

Poucos meses depois, o mundo parou.

A presidência de Lagarde acabou por coincidir com uma sucessão de choques que nenhum dos seus antecessores enfrentou em tão curto espaço de tempo: pandemia, crise energética, guerra na Ucrânia e o regresso da inflação a níveis que a Europa não via há décadas.

Nada disso se adivinhava ainda no momento em que tomou posse. Na primeiríssima conferência de imprensa oficial como presidente do BCE, o grande tema – e a dúvida dos jornalistas e analistas – era se seria uma continuação de Draghi ou se iria adotar uma visão (e política) mais restritiva dos deveres do banco central.

Advogada de formação e carreira – mas com alma de espadachim de Luis XIV – Lagarde aparou a estocada a meio e fez o riposte: “Não sou uma pomba, nem um falcão. A minha ambição é ser uma coruja.” A mensagem era clara: mais importante do que a ortodoxia monetária seria a capacidade de ler as circunstâncias. Não seria o instinto predador ou de presa a funcionar, mas sim a sabedoria.

Nem sempre conseguiu fazê-lo. Meses depois, com a crise da covid a fazer disparar os juros da dívida de países como Itália ou Espanha, Lagarde foi menos hábil, referindo que não tinha a pretensão histórica de ser uma segunda versão do “custe o que custar”. Que é como quem diz, não é dever do banco central adotar políticas para controlar o spread dos juros da dívida entre os países da Zona Euro. A referência a Draghi foi interpretada como um sinal de hesitação, numa altura em que os investidores procuravam precisamente garantias de intervenção, e causou pânico imediato nos mercados. Dias depois, o BCE foi obrigado a corrigir o rumo, lançando o programa extraordinário de compras de ativos associado à pandemia, uma operação de dimensão sem precedentes destinada a estabilizar os mercados financeiros e evitar uma nova crise da dívida soberana.

É neste equilíbrio entre apoio e restrição que será avaliado o legado de Lagarde.

Para Portugal, a atuação do BCE foi decisiva. O Estado financiou-se em condições historicamente favoráveis durante a pandemia e as empresas e famílias beneficiaram de um ambiente de crédito sem precedentes. Sem essa intervenção, o choque económico teria sido bastante mais severo.

O balanço torna-se mais controverso no capítulo da inflação.

Entre 2021 e 2022, o BCE insistiu durante demasiado tempo na ideia de que a subida dos preços seria transitória. Quando ficou claro que não era, alimentada pela recuperação económica pós-pandemia e pela guerra na Ucrânia, a inflação já fazia minguar os rendimentos e as poupanças em toda a Zona Euro.

A resposta foi rápida e agressiva. Em pouco mais de um ano, o BCE promoveu o ciclo de subida de juros mais intenso da sua história. O objetivo era travar a inflação. O efeito colateral foi sentido sobretudo pelos países mais endividados e pelas famílias com crédito à habitação.

Portugal foi um dos casos mais evidentes. As prestações da casa aumentaram, o consumo ressentiu-se e muitas famílias viram reduzir a sua margem financeira. Ao mesmo tempo, a inflação começou a recuar, confirmando a eficácia da política monetária naquilo que é a sua missão principal: a estabilidade dos preços.

É neste equilíbrio entre apoio e restrição que será avaliado o legado de Lagarde.

Não ficará associada a uma frase transformadora como Draghi. Nem terá provavelmente o mesmo lugar na história da integração europeia. Mas esteve à frente do BCE num dos períodos mais exigentes desde a criação da moeda única. Teve de apoiar a economia quando esta corria o risco de paralisar e, pouco depois, de retirar estímulos quando o excesso de liquidez e os choques externos alimentavam a inflação.

Talvez seja essa a melhor síntese da sua presidência. Menos épica do que a de Draghi, mais sujeita a erros de comunicação e a mudanças de rumo. Mas moldada por circunstâncias extraordinárias, num período em que o BCE foi chamado, repetidamente, a responder a crises que poucos tinham antecipado. Para Portugal e para a Europa, esse será o seu verdadeiro legado.