Os novos espiões

Publicado a

Quando viajava com o Manuel para uma reportagem no estrangeiroficava sempre intrigado com a bolsa volumosa que ele tentavadisfarçar com o casaco. Um dia, ganhei coragem e perguntei-lhe o queera. Meio envergonhado, respondeu com os olhos muito abertos: "Édinheiro vivo. Não confio nos cartões de crédito. Fazemos umacompra com eles e ficam todos a saber onde andamos, do que gostamos equanto dinheiro temos. Eu cá não confio neles!" Uma décadadepois o tempo veio dar toda a razão ao velho Manuel.Numa altura em que Portugal parece estar escandalizado com afacilidade como podemos ser espiados, será que alguém aindaacredita que são necessários serviços de informação do Estadopara conseguir descobrir os nossos mais íntimos segredos? Só mesmo os mais inocentes ou distraídos acreditam ainda nosagentes secretos. Hoje, a forma como comunicamos e os instrumentoselectrónicos que utilizamos são os espiões deste século - e nósnem sequer sonhamos o que realmente revelam sobre nós. Tudo o que demais inovador e mais gratuito fazemos na Internet vem com um preçoaltíssimo: a nossa privacidade. Sempre que teclamos, fazemos uma pesquisa, entramos num site ourede social, estamos a deixar pistas que de imediato vão sercompiladas, analisadas e enviadas para bases de dados que depois asvão utilizar quando for necessário. Alguém está a pagar, e muito,para seguirem as nossas pegadas na Web.Fiquei impressionado quando, nos Estados Unidos, me foi revelado oque estão a fazer com a nossas informações - recolhidas atravésde Google, Microsoft, Yahoo, Apple, Facebook, Twitter ou qualqueroutra companhia. A nossa mais inocente pesquisa ou registo já não éapenas cobiçada e comprada por empresas de marketing. Agora, osgrandes clientes das nossas informações na Internet passaram a serquase todas as companhias, desde seguros a saúde, advogados e atéempresas de recrutamento.O problema é que nada podemos fazer para nos defendermos destainvasão da privacidade. Por mais que nos garantam protecção, nãose iludam porque estamos indefesos contra seguradoras, bancos,reguladores ou mesmo autoridades de qualquer parte do mundo. Elessabem muito sobre a nossa vida sem necessidade de interrogatório ouinvestigação secreta.Um exemplo que me foi revelado mostrava como uma simples pesquisafeita por alguém - sobre cancro - levou, em segundos, essainformação para ser agregada a um formulário de candidatura a umemprego que preenchera; e a companhia de seguros desse candidato foialertada de imediato para a pesquisa. Não tenham ilusões, todos temos já um extenso "registocriminal electrónico" que pode até nem ser rigoroso, mas vaiseguramente ter muito mais força e valor do que qualquer certificadopedido no registo civil. Depois de eu terminar de escrever este artigo no computador, defazer pesquisas na net, de o ter enviado e partilhado nas redessociais, sei que alguém, algures, já ficou a saber muito mais sobremim. Mas, desta vez, pelo menos, eles sabem que eu já sei o que elessabem! Pivô e jornalista da RTP

Escreve à sexta-feira

Diário de Notícias
www.dn.pt