Páginas Amarelas: Da lista telefónica ao marketing digital

Pandemia gerou maior interesse pelo digital, mas o CEO estima que só em 2023 é que a empresa poderá regressar aos valores pré-covid.
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Para muitos, Páginas Amarelas é sinónimo de lista telefónica, um serviço público vital no tempo em que não havia internet e em que, para encontrar uma empresa, um serviço ou simplesmente o contacto de um café ou restaurante, se recorria ao calhamaço imenso das páginas coloridas precisamente de amarelo. Um negócio que desapareceu, com o advento do digital e a chegada dos motores de busca, como a Google, obrigando a empresa a reformular, por completo, a sua oferta, centrando-se no marketing digital. A pandemia veio baralhar as contas. Embora a covid-19 tenha gerado uma grande procura por parte das empresas, a incerteza quanto ao futuro leva muitas delas a hesitarem no momento de investir. E só em 2023, admite António Alegre, a Páginas Amarelas voltará aos valores de faturação pré-covid.

"A pandemia veio aumentar, significativamente, a procura, mas a instabilidade criada leva muitas empresas a terem receio de não conseguirem cumprir com os seus compromissos. Por outro lado, estão à espera de conseguir resultados de um dia para o outro, quando o investimento no digital leva tempo a produzir efeitos", diz ao Dinheiro Vivo o CEO da empresa.
No auge da lista telefónica, a Páginas Amarelas chegou a faturar mais de cem milhões e a dar emprego a mais de 240 pessoas. Com o advento da internet, começou a perder negócio. E o slogan "Vá pelos seus dedos", em referência ao folhear da lista em busca do contacto necessário, deixou de fazer sentido.

Embora a lista telefónica só deixe de ser editada a partir de 2015 - como serviço público que era, havia compromissos assumidos com o Estado que tiveram de ser cumpridos -, a empresa havia percebido há muito que o digital era o futuro e, em 1997, as Páginas Amarelas chegaram à internet (um ano antes da Google). Em 2000 foi lançado um novo portal de restaurantes e, em 2005, é adotada, pelo primeira vez, a sigla PAI - Páginas Amarelas Internet.

Citaçãocitacao"Ter uma loja online é o mesmo que ter um espaço no piso -10 do estacionamento de um centro comercial: ninguém lá vai. É preciso promover as lojas e esse é um investimento que gera resultados, mas que demora tempo."esquerda

"A empresa passou uma enorme transformação. Em 15 anos, perdeu praticamente 90% do seu volume de negócios. O nosso primeiro objetivo foi conseguir reestruturar o negócio, a abordagem ao mercado e a oferta, de modo a conseguir que a empresa sobrevivesse, para depois estabilizar e começar a crescer", explica António Alegre, que comprou a Páginas Amarelas em 2014, no âmbito do primeiro Plano Especial de Revitalização (PER) a que a empresa se submeteu. Em 2015, houve novo PER, mas hoje, garante, já pagou tudo o que devia aos ex-trabalhadores, "com juros", e renegociou as dívidas à banca, com um aumento do prazo de pagamento, "mas sem qualquer haircut".

Agora a empresa tem metade dos trabalhadores, e apesar da quebra na faturação - 11 milhões em 2019, valor que caiu com a pandemia -, "tem tido sempre resultados positivos". E desde setembro de 2021 que inverteu a tendência de quebra provocada pela covid. "Agora é esperar que 2022 seja um ano histórico, com um aumento da base de clientes e um crescimento sustentado, mês a mês, do volume de negócios", sublinha o CEO. O objetivo para este ano é conseguir um aumento da base de clientes na ordem dos 10%, preparando o caminho para que, em 2023, possa regressar aos 11 milhões faturados pré-pandemia.

Atraso digital

A Páginas Amarelas conta com mais de oito mil clientes, em todo o país, "maioritariamente da área dos serviços" e ajuda a fazer a ponte destes com gigantes mundiais como a Google, a Amazon, o Facebook ou a Wix. Da sua lista de serviços constam coisas tão simples como o desenho de websites, a gestão de redes sociais, o geomarketing ou a publicidade online. A plataforma pai.pt é hoje um marketplace com mais de 250 mil empresas registadas.

O problema é que 30% das empresas portuguesas ainda não têm qualquer presença online e, no caso das microempresas, ou seja, com menos de dez trabalhadores, esse número sobe para 60%, garante António Alegre. "São dados alarmantes. Costuma-se dizer que o futuro é digital, mas eu acho que é já o presente que é digital e quem não está neste meio dificilmente terá um futuro sorridente", alerta.

Além de reforçar os seus quadros, para melhor dar resposta personalizada aos seus clientes, a Páginas Amarelas investirá mais de 700 mil euros, nos próximos dois anos, em tecnologia e reforço de soluções para "aumentar o valor que acrescenta aos seus clientes".
Oferece serviços à medida das necessidades das empresas, com soluções "a partir dos 30 euros por mês", que são "elásticas", na medida em que permitem ir acoplando novos produtos e serviços. Uma campanha na Google obriga a gastos um pouco mais elevados, de pelo menos, cem euros por mês.

"Há valores mínimos para se sentir alguma diferença", reconhece António Alegre. Em média, cada cliente paga 150 a 200 euros por mês pelos serviços da Páginas Amarelas, que está apostada em "democratizar o marketing digital em Portugal". E tudo depende de caso para caso. "Não podemos comparar as necessidades de um restaurante que está numa grande cidade, com muita concorrência, e que terá que investir muito mais do que um outro que esteja numa zona com menos concorrência".

A verdade é que, apesar da grande procura pelos seus serviços, o mercado "ainda está pouco seguro", a incerteza "ainda é muito grande" e há empresas "em grandes dificuldades". "Uma coisa é certa: parar a publicidade para poupar dinheiro é como parar um relógio para poupar tempo", frisa.

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