Apesar de tudo há adultos na sala. Calma, António Costa continua a fazer malabarismos que quase nos fazem esquecer o essencial da situação política; o seu Governo estava politicamente esgotado, em maus lençóis, não tinha futuro.
Marcelo tenta ficar calado por uma vez, mas não consegue resistir; fala dos Távoras e de traições e tenta colocar na boca do primeiro-ministro coisas que este não disse, pelo menos publicamente.
No Partido Socialista abriu a época da caça. Tentam-se destruir mutuamente os candidatos a secretário-geral, esquecendo que, depois, um deles vai ter que ser a cara do partido a tentar conquistar os votos dos portugueses nas eleições legislativas.
Os sociais-democratas estão à deriva, ninguém percebe a estratégia do líder, ninguém dá verdadeiramente a cara por ele; e Montenegro parece que estaria mais confortável como terceiro candidato na luta do PS do que ter pose de Estado e afirmar-se como candidato a primeiro-ministro. Figuras relevantes do partido falam em Passos Coelho publicamente. O pior dos sintomas! Sente-se mesmo um nervosismo no ar.
O Chega, outrora um relevante partido populista, repentinamente vacinado de moderado; mostra-nos nos Açores que não poderá nunca ter a confiança dos portugueses. Ameaça, mais uma vez, o acordo de incidência parlamentar que tem governado a região autónoma.
A Iniciativa Liberal tem um grave problema, ninguém lhes reconhece o líder; e este parece estar mais habituado ao Twitter do que a apresentar e a defender ideias com princípio meio e fim. Volta Cotrim de Figueiredo que estás perdoado.
O CDS continua naquilo que teve o pior CDS. Falta-lhe vida, chama... Vivemos num país de memória curta que esqueceu os bons serviços que este partido já realizou ao país.
No Partido Comunista há um problema evidente, o novo líder não teve tempo para se preparar para umas eleições. Os apoiantes vão morrendo e o partido não se renova. O novo secretário-geral foi buscar uma velha cassete, nem se sabe se de Carvalhas, se de Jerónimo, mas é repetida num tom monocórdico e ninguém se lembra de nada de relevante para contar.
O Bloco de Esquerda tem finalmente a líder que ansiava há anos, acredita que esta lhes vai trazer mais espaço, comer parte do eleitorado do PS das últimas eleições; mas Mariana ainda não conseguiu limpar-se de um certo léxico marcadamente ideológico de discurso, o que não lhes permitirá crescer muito para além daquilo que já foram.
Enfim, e quando parece que vivemos num país perdido; Paul Krugman, economista norte-americano que venceu o Nobel em 2008, vem dizer-nos que «Portugal é uma espécie de milagre económico». Vai desmentir um Nobel e dizer que não é verdade? Repare, apesar de tudo, há forças que seguram isto em pé; o Orçamento do Estado vai ser aprovado. Ninguém quer legislar a quente as actuais fragilidades políticas e sociais. Os sindicatos pararam as greves até novo Governo. A economia está a melhorar... Há pontes entre partidos, por muito estranho que pareça, nunca são derrubadas as pontes, havendo diálogo subterrâneo entre as máquinas pensantes no Parlamento.
Somos portugueses. Um país de brandos costumes! Olhe aqui para o lado, vire-se para Espanha, veja... Percebe agora porquê todos devíamos festejar o nosso Primeiro de Dezembro?
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)
("Até às eleições" é o mote para uma sequência de artigos de opinião, de segunda a sexta-feira, de Duarte Mexia (duarte.mexia@gmail.com), que serão publicados, precisamente, até à realização das próximas eleições Legislativas, marcadas para 10 de março.)