

Com uma faturação de 100 milhões de euros, e empresas como a Sonae, CTT e EY na carteira de clientes, a Kinto Portugal aposta na diverificação da oferta e digitalização dos serviços para ganhar quota de mercado.
O que mudou na atividade da Kinto Mobility, antiga Finlog, desde que assumiu a liderança, em 2018?
Ao longo destes anos, com a mudança para a Kinto, a marca de serviços de mobilidade da Toyota que resulta da participação da Kinto Europe no capital da Kinto Portugal, iniciámos um processo de transformação de negócio. Passámos de uma empresa dedicada à gestão de frotas automóvel para uma empresa de soluções de mobilidade variada. Passámos a desenvolver soluções que respondem às necessidades dos nossos clientes, sejam particulares e/ou profissionais, e que cobrem todas as franjas de utilização, desde o renting de longa duração com todos os serviços incluídos (Kinto One), o aluguer mensal com flexibilidade total (Kinto Flex) e o aluguer diário (Kinto Share).
Assumindo-se como empresa de mobilidade sustentável, a eletrificação é a prioridade?
Estamos constantemente a olhar para o futuro da mobilidade e a trabalhar para oferecer mais e melhores soluções para os nossos clientes e para uma sociedade mais sustentável. Acreditamos que um dos pilares para isso acontecer é a transição energética da nossa frota, mas não só. É necessário oferecer uma experiência global e sem complicações para o cliente. A nossa oferta de mobilidade elétrica inicia-se com um processo de consultoria na transição energética - viaturas eletrificadas e infraestrutura, soluções de carregamento, como a nossa app Kinto Charge, que dá a liberdade de carregar a viatura onde e quando o cliente quiser, e ainda formação específica para condutores. A Kinto acredita muito na combinação de soluções alternativas, que se complementam e ajudam na transição energética. Por exemplo, viaturas híbridas, híbridas plug in ou até, num futuro de médio prazo, com tecnologia que recorre ao hidrogénio como fonte de energia. A Kinto tem, por exemplo, uma proposta de valor, em Paris, 100% dedicada a transporte público (taxistas) integralmente recorrendo ao hidrogénio.
Há cada vez mais empresas em Portugal a substituir as suas frotas por veículos elétricos?
Sim, existe uma tendência crescente na procura de viaturas elétricas como solução para substituição da frota de empresas em Portugal, mas de forma prudente e muito centrada nas viaturas de passageiros. Nas viaturas comerciais ligeiras, a transição energética está mais atrasada, como se vê pelo número de matrículas ainda relativamente baixo (inferior a 8% em 2024). Esta mudança é impulsionada devido à desmistificação dos mitos associados às viaturas elétricas, pela combinação de benefícios fiscais, pelo avanço tecnológico das próprias viaturas e pela necessidade das empresas de atingirem objetivos de redução da sua pegada de emissões. Estes fatores contribuem para uma transição energética de frota cada vez maior nas empresas em Portugal, promovendo a sustentabilidade e reduzindo a pegada de carbono.
É preciso acelerar esse processo? São necessários incentivos públicos?
É uma questão complexa. Pensamos que ainda há muitas entidades e instituições que não compreendem bem o custo da transição energética. É um tópico incontornável, mas que gera, por exemplo, muita pressão nas OEM (fabricantes automóveis) dado o enorme esforço de investimento necessário. A entrada em vigor, em 2025, das normas Euro 7 pode ter um impacto muito severo - multas severas - para quem não cumprir com o mix de emissões das viaturas vendidas na Europa. Este facto vai mudar radicalmente o modelo de oferta e procura, passando a incluir outras variáveis de decisão que são complexas de gerir.
Quem são alguns dos grandes clientes corporativos da Kinto?
A Kinto tem um portefólio muito rico de clientes, com diversos setores de negócios. Podemos mencionar alguns como a Sonae, CTT, Ernest & Young, entre outros. Mas o portefólio de clientes da Kinto estende-se por um vasto número de PME que servimos todos os dias. Na verdade, cerca de 60% da nossa frota sob gestão corresponde a clientes com frotas nesse segmento.
A carteira de clientes cresceu no ano passado?
A carteira de clientes cresceu devido à diversidade de soluções de mobilidade que oferecemos. Desde 2020, praticamente duplicamos a frota sob gestão, em valor, o que mostra a nossa forte capacidade de crescimento e adequação dos serviços às necessidades dos clientes.
Qual é a quota de mercado da Kinto e quais são os objetivos para 2024?
A nossa expectativa é continuar a crescer em 2024, mas sempre de forma prudente e sustentável. Segundo a Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting, a nossa quota no mercado “tradicional” no renting está acima dos 12%. Estamos a começar a analisar o mercado de forma diferente, porque as necessidades de mobilidade dos clientes são mais abrangentes. Por exemplo, consideramos soluções como o aluguer flexível de curta duração de viaturas, e ainda o Share, o aluguer diário.
A digitalização tem sido uma aposta da empresa? Qual a importância da vertente tecnológica?
A digitalização tem sido uma aposta central da Kinto Portugal. Na nossa visão, a vertente tecnológica é crucial para o futuro da mobilidade. A Kinto está comprometida em transformar a maneira como as pessoas se movem e, para isso, tem havido um investimento contínuo em soluções digitais que permitem uma gestão mais eficiente e sustentável da mobilidade dos nossos clientes, bem como uma melhor experiência para os utilizadores. Acabámos de lançar um portal de cliente que permite a marcação online de serviços nas viaturas sendo que, após dois meses, já tem uma adesão superior a 9% - muito além da nossa expectativa inicial, o que demonstra a aceitação das pessoas por soluções digitais.
Empregam cerca de 100 pessoas. A digitalização implica redução de postos de trabalho?
A digitalização e automação tendem a eliminar tarefas repetitivas de baixo valor, permitindo aos colaboradores concentrarem-se em atividades mais complexas e de maior valor acrescentado. Com a adoção de novas tecnologias, observamos um aumento de produtividade que nos permite expandir o nosso negócio e, consequentemente, criar novos empregos. No entanto, também é verdade que isso levanta um novo desafio, que é o reskilling das pessoas.
Voltando ao hidrogénio. Como pensa que evoluirá a mobilidade a hidrogénio em Portugal?
Resolvida a questão de distribuição do hidrogénio, esta é efetivamente uma solução viável para a mobilidade. É um processo mais complexo que envolve a produção, o transporte e o armazenamento numa estação de serviço de hidrogénio, o qual tem a sua complexidade e implica investimentos significativos. Superando esses pontos, o hidrogénio terá um crescimento substancial e representa um combustível alternativo aos combustíveis fósseis, absolutamente essencial para o futuro.
Já há autocarros a hidrogénio em circulação em Portugal. A Kinto tem participado nesse processo?
A Kinto tem participado em processos de autocarros a hidrogénio. Em 2022, entregou o seu primeiro renting de autocarro a hidrogénio na Dinamarca, fabricado pela Caetano Bus nas instalações de Gaia, Portugal. Esta primeira experiência, com autocarros Caetano Bus / Toyota a hidrogénio, com gestão de frota em termos experimentais e em parceria com um operador na Dinamarca, proporcionou-nos muitos insights que podem ser aplicados para Portugal. Como mencionei, a Kinto, em Paris, tem uma solução em parceria com a Air Liquide e a Toyota para transporte público (táxis). Estamos muito atentos e interessados em desempenhar um papel relevante na mobilidade utilizando esta forma de energia. Em Portugal, a Kinto One poderá ser uma solução para empresas de transporte coletivo urbano movidos a hidrogénio.
É de esperar que o hidrogénio verde chegue também a ligeiros de passageiros?
O hidrogénio verde é produzido utilizando fontes de energia renováveis, como eólica ou solar, sem emissões de carbono no processo de produção. A Toyota tem-se esforçado para promover o uso de hidrogénio verde nos seus veículos. Em vários testes e eventos, incluindo um recorde de distância, a Toyota utilizou hidrogénio verde
para abastecer o Mirai, demonstrando o compromisso da empresa com a sustentabilidade e zero emissões.
Quais são os maiores obstáculos à descarbonização no setor automóvel em Portugal?
A descarbonização do setor automóvel em Portugal enfrenta ainda alguns obstáculos. Um dos maiores desafios está relacionado com a infraestrutura necessária para suportar veículos eletrificados. Embora o governo e as empresas estejam a investir em postos de carregamento e outras infraestruturas, a cobertura fora das grandes cidades ainda é insuficiente para uma transição massiva e eficiente. Em conjunto com outras tecnologias, a transição será gradualmente conseguida, mas não é, nem pode ser “de um dia para o outro”. Pensamos também que a criação de ecossistemas e parcerias complementares serão essenciais para que esta transição seja bem-sucedida.
Face a outras geografias, como se posiciona Portugal neste processo?
Portugal tem mostrado alguma evolução neste processo, com a implementação de alguns planos específicos para reduzir as emissões, no entanto, as infraestruturas, como mencionado acima, ainda são insuficientes. Quando olhamos para a Noruega ou Alemanha, líderes europeus neste setor, encontramos uma rede de carregamento completa e políticas com maiores incentivos fiscais. Ainda assim, se perguntarmos a opinião a um norueguês, ele dirá que fora das grandes cidades, a utilização de viatura elétrica ainda é um desafio, especialmente em temperaturas baixas.