As SAD (Sociedades Anónimas Desportivas) dos três grandes clubes portugueses de futebol precisam com urgência de implementar medidas para alterar a sua débil situação financeira e de liquidez, que corre o risco de se agravar. A Maxyield-Clube dos Pequenos Acionistas fez uma análise à situação das SAD do Benfica, Porto e Sporting e encontrou "dificuldades de liquidez", "capitais próprios negativos" nas SAD portista e leonina. E, segundo a análise, a situação poderá agravar-se no segundo semestre da época de 2020/21, apesar de duas delas terem lucros - a do Porto e a do Benfica.
Também a dívida remunerada emitida preocupa a Maxyield. "A dívida financeira remunerada das três SAD é de 578 milhões de euros, sendo que a Porto SAD representa 51,4% e as outras duas SAD fatias relativamente próximas", refere no seu relatório com as conclusões da análise. Salienta que "os níveis de liquidez e a situação do fundo de maneio recomendam a alteração do perfil temporal da dívida financeira remunerada, devendo aumentar a sua concentração no médio prazo". Destaca que "a situação é particularmente gravosa a nível da Porto SAD, cuja dívida financeira no montante de 297,3 milhões de euros é superior ao ativo não corrente", de 258 milhões de euros.
Para a Maxyield, "o recurso a sucessivos empréstimos obrigacionistas anuais com custos associados elevados, para reembolsar obrigações vencidas e cobrir necessidades de tesouraria, não se afigura uma base sólida para manter uma adequada estrutura financeira a médio e longo prazo e vem dando sinais de esgotamento".
As conclusões da análise levaram a Maxyield a emitir 11 recomendações às SAD "a nível da administração e fiscalização destas sociedades abertas, suscetíveis de ultrapassar as dificuldades financeiras atuais e melhorar o seu desempenho organizacional". "É uma nova perspetiva de desempenho, com valorização do mix sucesso desportivo e resultados financeiros", salienta no relatório. Frisa que "estas questões são prementes num contexto de baixa das cotações dos atletas no mercado internacional e regresso limitado do público aos estádios, que vão condicionar a gestão financeira a curto prazo e terão consequências num horizonte temporal mais alargado".
Para a Maxyield, "as SAD necessitam de calibrar liquidez e resultados de exploração, sendo que este aspeto é da maior importância". Aponta que "a venda de direitos desportivos favorece a tesouraria, mas se não for acompanhada de mais-valias importantes não tem impacto na conta de resultados de exploração".
Uma das recomendações é a recapitalização das sociedades. Assim, defende que a "implementação duma solução financeira estável e sustentável passa pelo recurso à recapitalização através de aumento do capital social da SAD com base em ações escriturais e ações preferenciais remíveis sem voto, mantendo uma posição em torno de 50% dos direitos de voto dos clubes".
Também defende uma forte dispersão de capital em bolsa, por entender ser a "solução adequada, pois os atuais acionistas com participações qualificadas não têm capacidade financeira ou não parecem interessados num desenvolvimento estratégico das SAD, num quadro financeiramente sustentável". Em termos quantitativos, "sugere-se um free float (participações inferiores a 2%) em torno de 35%-40%".
Aponta ainda que deve ser desenvolvido um modelo de negócio sustentável e apoiado em três grandes dimensões : futebol, a vertente comercial e os direitos TV. Defende que "a gestão desportiva e a gestão financeira quer dos ativos quer das receitas duma SAD têm de estar integradas na mesma área de responsabilidade". Recomenda que seja "criada uma unidade de negócio para gerir as receitas" e potenciar os direitos de TV. Sugere que "existem SAD cotadas que poderão posicionar-se no PSI -20". Por fim, defende novas práticas de gestão, uma fiscalização adequada da administração. "As SAD não podem continuar como sociedade fechadas, com débeis mecanismos de auditoria interna e frágeis processos de controlo, devendo valorizar estas valências empresariais e assegurar mais responsabilização no processo de fiscalização da sociedade", diz. Pede melhor informação ao mercado e representação da diversidade acionista na administração da SAD.