António Pires de Lima tem um sonho: duplicar o volume de
negócios da Unicer nesta década, atingindo o número mágico de mil
milhões faturados. A Super Bock e a Águas das Pedras são as suas
armas. África, Brasil e Estados Unidos são a sua geografia.
O financiamento das empresas é o principal fator de
estrangulamento da nossa economia?
No curto prazo essa é a principal limitação a uma agenda de
crescimento. Mas para além desse problema, que espero seja
circunstancial, a economia portuguesa está no estado em que está
devido a erros múltiplos de governação e dependência do Estado,
mas por causa da incapacidade de muitos empresários e gestores em
saber requalificar as suas empresas.
Como vão financiar o investimento de 80 milhões na fábrica de
Leça do Balio?
Misturando bancos portugueses e estrangeiros, sendo que metade do
investimento é autofinanciado. Temos uma situação de dívida muito
confortável. Com os 300 milhões de euros gerados nos últimos seis
anos - nove vezes mais que a nossa concorrência -, remuneramos os
acionistas com 120 milhões e reduzimos a nossa dívida em 130
milhões. Quando entrei, o passivo estava nos 320 milhões. Agora
está nos 190.
Não é um risco grande aumentarem a capacidade produtiva num
momento em o consumo está a cair para níveis de há 20 anos?
O risco é enorme, mas é nestes momentos que faz sentido a
portugalidade da Unicer. Acho graça quando vejo multinacionais que
deslocam os escritórios para fora de Portugal, que cada vez empregam
menos pessoas no nosso país, que contratam gestores internacionais
para liderar as suas subsidiárias portuguesas, a gastarem milhões
de euros em publicidade para tentarem convencer os portugueses de que
são portuguesas. Na Unicer não precisamos de gastar dinheiro para
dizer que somos portugueses. A nossa Comissão Executiva é toda ela
portuguesa. Mais de 90% dos nossos colaboradores são portugueses.
Estamos a pôr dinheiro em Portugal porque os nossos acionistas
acreditam na Unicer e no país.
A Central de Cervejas deixou de pôr todas as fichas na Sagres e
está também a apostar na Heineken. Como vai responder a esta
inflexão?
A aposta na Heineken, a substituição do dr. Alberto da Ponte por
um holandês com uma forte formação financeira e a compra da
Central pela subsidiária espanhola da Heineken são sinais evidentes
de uma mudança de ciclo da nossa concorrência, que vai ter uma
maior preocupação em produzir resultados. As multinacionais têm
uma estratégia ibérica e aposta na Heineken corresponde a isso
mesmo, pois a que é cá vendida é toda produzida em Espanha. A
nossa concorrência está numa estratégia que passa por importar
cada vez mais cerveja de Espanha.
Como vão reagir a esta mudança?
Nós já demonstrámos que sabemos reagir à agressividade da
nossa concorrência. Temos uma liderança partilhada na área das
cervejas. Nas águas, a Pedras conquistou a liderança em valor. Na
exportação de cervejas temos 80% do valor e 75% do volume. E não
estamos parados. Anos de dificuldade são tempos de oportunidade.
Iniciámos um investimento de dez milhões de euros no relançamento
da nossa principal marca, sob o lema A vida é Super, mas só com a
Super Bock.
Rock e futebol continuam a ser o essencial da apostando marketing?
Rock, futebol e as festas populares. Renovámos por mais três
anos o patrocínio oficial das Festas de Lisboa. E no quadro da nossa
estratégia de proximidade, também apoiamos as Feiras Novas de Ponte
de Lima e as festas de Gaia, Matosinhos, Santarém, Grândola....A
Super Bock é uma marca muito abrangente que conquistou um estatuto
de grande cumplicidade com os consumidores.
Está satisfeito com a quota de mercado da Super Bock em Lisboa e
no Sul?
No Algarve já somos líderes. E em Lisboa aproximamo-nos a passos
largos de uma quota de 40%. Não estamos mal.
Com o consumo a cair no mercado interno, como é que vai conseguir
atingir esta década a meta dos mil milhões de euros de volume de
negócios?
Para crescermos até aos mil milhões, a aposta tem de ser no
exterior. Já fazemos 40% das nossas vendas fora de Portugal. A Super
Bock é a marca portuguesa que mais vende em todo o mundo. Mas temos
de ir mais longe. Reforçar a aposta em África, onde podemos
desenvolver uma operação igual ou maior à que temos em Portugal.
Temos equipas a trabalhar não só Angola, mas também Cabo Verde,
Moçambique e África do Sul. Na Europa, apesar do consumo de cerveja
ter diminuído, crescemos 10%. E além do eixo
França/Suíça/Luxemburgo, estamos a apostar no Norte de Espanha e
Reino Unido. O terceiro eixo é o desenvolvimento da Pedras como
marca super premium e sofisticada que vai ser este ano lançada nos
Estados de Nova Iorque, Washington, S. Paulo e Rio de Janeiro. A
quarta aposta é dar um grande impulso à marca Super Bock na América
do Norte, através da exportação, e no Brasil, onde estamos em
conversações para a produzir e licenciar localmente.
O presidente e os produtos da Unicer
No dia em que apresentou as contas de 2011 (24,1 milhões de euros
de lucro e 649 milhões de litros vendidos) Pires de Lima analisou
três das principais marcas do grupo Unicer.
Super bock não engorda - Os meus momentos Super Bock tanto podem ser de intimidade,
quando chego a casa, como de convívio, com os amigos. E não é
verdade que engorde. Desde que estou no Porto bebo o dobro e estou
mais magro."
Águas das pedras não é para todos - "A Águas das Pedras é a nossa joia preciosa. Além de fazer
bem, é trendy. Tem um enorme potencial e uma limitação. As fontes
só nos dão 80 milhões de litros/ano. Ou seja, é um tesouro mas
não é para todos."
Carlsberg é uma cerveja excecional - "A Carlsberg é uma cerveja excecional, fabricada em
Portugal, onde é líder destacada no segmento premium. É a escolha
certa para quem procura uma cerveja diferente e mais internacional."
80 milhões de euros para fazer a melhor fábrica da Europa
A Unicer vai investir 80 milhões de euros na fabrica de Leça do
Balio, que passará a ter capacidade para produzir 450 milhões de
cerveja/ano, que poderá ser dilatada para 600 milhões. A primeira
fase estará operacional dentro de um ano. "Vai ser a fábrica
de cerveja mais moderna e com o custo operacional mais baixo de toda
a Europa. A best in class, como se diz na gíria internacional",
diz Pires de Lima.
PERFIL: António Pires de Lima, 49 anos, presidente executivo da Unicer
A mãe é do Porto e o pai de Barcelos, mas ele nasceu em Lisboa,
a 7 de Abril de 1962, porque Salazar chamou o avô materno até à
capital para ser diretor geral no Ministério do Interior. Os
jesuítas encarregaram-se da sua formação, já que entre 1968 e
1979 fez Primária e o Secundário no Colégio de S. João de Brito,
onde fez amizade com Paulo Portas, seu colega desde a 1.ª classe.
Depois de cursar Economia na Católica, teve o seu primeiro emprego
na Procter and Gamble ("Tive uma grande dificuldade em explicar
ao meu avô que vendia pensos higiénicos Evax, tampões Tampax e
fraldas Dodot"). Depois foi para a Scottex, onde conquistou 25%
do mercado do papel higiénico. Tetra Pak e Compal foram os últimos
apeadeiros antes de desembarcar em 2006 na Unicer.
Joga golfe, é
sportinguista ferrenho, tem cinco filhas, sendo que as duas mais
novas, Madalena e Matilde, são portistas.
Durante a semana, vive na Foz, na rua do Padrão. No final de um
dia de trabalho intenso faz parte da lista dos seus prazeres dar uma
grande passeio a pé, entre o Castelo do Queijo e o Passeio Alegre,
fazendo um percurso pelos passeios largos das avenidas, enquanto que
no regresso vem pelo caminho junto às praias e esplanadas
Tem casa no Estoril, gosta muito da marginal que liga Cascais a
Lisboa e sonha com o dia em que seja possível ir a pé, sempre à
beira das praias e do Tejo, de Cascais até à Expo. Mas o sítio que
mais adora é o Chiado: "Tem uma vida fantástica".
Recomenda as vistas de cortar a respiração das esplanadas de hotéis
Bairro Alto e Chiado.