Há três semanas, o ator Ashton Kutcher escolheu algumas roupas do seu armário e colocou-as à venda numa aplicação de telemóvel. As peças desapareceram desta “loja pop-up” quase tão rapidamente quanto entraram, esgotando numa hora. Não é que Kutcher quisesse fazer dinheiro com os seus fatos usados – as receitas foram para a organização sem fins lucrativos Thorn.
O ator foi o primeiro a estrear um novo conceito dentro de uma aplicação que começou assim mesmo: a dar aos utilizadores a possibilidade de venderem as roupas que já não usam, já não servem ou já não gostam e fazerem uns trocos com isso. Chama-se Poshmark e por enquanto está disponível apenas nos Estados Unidos, mas tem no radar uma expansão internacional. É tudo uma questão de massa crítica, no ano em que a app chegou aos dois milhões de utilizadores.
“Criámos uma nova forma de retalho de moda”, declarou o CEO da empresa, Manish Chandra, na abertura do Poshfest 2016, que decorreu este fim de semana em Los Angeles. “Vocês estão a revolucionar a moda”, disse à audiência, quase exclusivamente composta por mulheres. Muitas começaram apenas por vender roupas que tinham perdidas no armário e acabaram por tornar isto o seu emprego a tempo inteiro.
Como? Comprando peças na feira da ladra, feiras de roupa usada ou em eventos de escoamento de stock de grandes marcas e revendendo depois na app. Algumas começaram a desenhar as suas próprias marcas e estão agora a vendê-las na Poshmark. O conceito é verdadeiramente interessante, e diferente de outros sites que permitem fazer o mesmo, como eBay ou OLX.
É que a Poshmark faz a gestão de praticamente todo o processo. Quando alguém faz uma venda, a empresa envia-lhe pelo correio a etiqueta com o nome e morada do comprador já impressa e os selos para envio postal – o vendedor apenas tem de deixar a encomenda nos correios. Em vendas abaixo de 15 dólares, a Poshmark recebe uma comissão fixa de 2,95. Acima desse montante, retira 20%.
Estamos a re-imaginar a indústria da moda”, reiterou Manish Chandra, referindo que os últimos doze meses têm sido difíceis para as marcas, com quebras que andam em torno de 8% e 10%. O impacto de redes sociais como o Instagram e Snapchat é visível, bem como de bloggers de moda. As compras estão mais localizadas, mais personalizadas. Há pequenas boutiques a abrirem online sem grande esforço. Os preços estão a cair.
A mudança tem sido visível, disse Chandra, na atitude das marcas: se há dois anos estavam relutantes em associarem-se a estes novos movimentos, agora querem estar no centro deles. “Temos tantos pedidos de celebridades que querem fazer parcerias connosco”, revelou o CEO.
A loja pop-up com roupas de Ashton Kutcher é um primeiro exemplo do que a empresa pode fazer, embora o ator esteja ligado à Poshmark desde o início, como investidor (a designer Rachel Zoe foi outra celebridade que investiu na app).
Durante o Poshfest, o Dinheiro Vivo conversou com várias utilizadoras da app. Todas as histórias são semelhantes: começaram por querer vender umas roupas usadas e acabaram “viciadas”, a montarem autênticas lojas. E não se trata apenas de Millennials. Glenna Wheatley, uma engenheira mecânica de Fort Worth (Texas) que acaba de se reformar, abriu uma boutique e está na Poshmark a tempo inteiro.
"Uma das coisas incríveis é o apoio e solidariedade que existe na comunidade”, explicou, enquanto entregava um cartão-de-visita que mandou fazer especialmente para o seu novo negócio. Isso mesmo foi repetido ao longo de todo o festival, e reconhecido por Manish Chandra: “O espírito da Poshmark foi criado assim. As pessoas mantêm-se ligadas. Não é apenas uma forma de crescer e ganhar dinheiro, mas de se apoiarem umas às outras.”
O crescimento é exponencial: em 2016, a aplicação processa uma transação a cada dois segundos. Embora Chandra não tenha detalhado os planos de globalização, a empresa confirmou ao Dinheiro Vivo que “a expansão internacional está no radar.” O mais curioso é que poucas utilizadoras tinham experiência em moda ou retalho antes de começarem a usar a app.
Eis algumas das dicas que partilharam para negócios bem sucedidos:
O próximo passo para a Poshmark? Atrair mais homens. A app acaba de abrir uma secção masculina, outra de crianças e acessórios. Se continuar a crescer desta forma, talvez os planos de expansão internacional sejam acelerados.