Um estribilho que agora ouvimos todos os dias e a toda a hora a propósito do colapso do sistema de saúde português repete que podemos ter mais camas mas que o pessoal de saúde, nomeadamente médicos e enfermeiros não esticam e que estão no limite. Chegamos ao limite do número de profissionais. E demora muito tempo a formar mais médicos e enfermeiros. Mas será verdadeiro este argumento?
Vamos por partes. Primeiro daremos como verdadeira a afirmação de que não existem médicos nem enfermeiros disponíveis no mercado de trabalho português e que o Governo tem razão nesse ponto e que, portanto, não é possível alargar significativamente o recrutamento interno.
Também é certo que formar médicos e enfermeiros demora vários anos. Um bom profissional necessita em média de 10 anos de formação e treino. Não há tempo para no curto prazo resolver a grave situação que enfrentamos através dessa opção, embora seja claramente o momento de alargar as admissões nos cursos de medicina, enfermagem e de outros técnicos de saúde para que na próxima pandemia não tenhamos os mesmos problemas.
Bom tem então o Governo razão? Ainda não. Existem, naturalmente outras opções.
Primeira. Todos nos lembramos de Boris Johnson a agradecer a um enfermeiro português que o tratou quando esteve internado com Covid. Eis a primeira solução, contratar os médicos e enfermeiros que nos últimos anos emigraram em grandes números para outros países. Já estão formados e adquiriram entretanto mais experiência e novas competências. Nenhum esforço parece estar a ser feito nesse sentido.
São portugueses que podem regressar ao seu país para ajudar a combater a pandemia.
Segunda. Pedir ajuda internacional, pedindo especialmente pessoal de saúde que possa vir auxiliar a combater a doença. Na primeira vaga vimos médicos chineses desembarcar em Itália para apoiar os seus colegas em dificuldades. Há países especialmente na Ásia, a China, mas também o Japão, a Coreia, Singapura, Nova Zelândia e territórios como Macau, Taiwan, Hong-Kong que conseguiram combater eficazmente a pandemia e que têm recursos humanos disponíveis para ajudar um país da dimensão do nosso.
Diremos então que sim os recursos em território nacional são finitos e estão esgotados, é agora tempo de olhar para fora, para o mundo, e perceber que para a nossa dimensão de pais de 10 milhões de habitantes, os recursos humanos disponíveis no planeta são na verdade extremamente abundantes.
Se queremos verdadeiramente salvar a vida de muitos portugueses temos de abandonar a visão paroquial do mercado nacional e olhar para o vasto globo.