Reino Unido: vai faltar comida se a seca se mantiver

O aviso foi feito no final do mês passado pela associação de agricultores do país, preocupada com os efeitos da onda de calor. Escassez no Reino Unido deverá pressionar outros países europeus.
Foto: D.R.
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Mais de metade do território no Reino Unido enfrenta uma seca significativa, enquanto outras regiões estão há muito tempo a sobreviver ao tempo seco. Apenas o nordeste do país apresenta um nível normal para esta altura do ano, e os agricultores britânicos estão preocupados. Depois de as cheias terem destruído parte das culturas, no inverno, a terceira seca em cinco anos faz com que os agricultores refiram que este é o “novo normal”. Segundo o The Guardian, os produtores de trigo dizem que as colheitas estão com metade da altura normal, para além de estarem a ser as mais precoces de sempre.

Em algumas regiões do país não chove há mais de um mês, e as sucessivas ondas de calor têm secado cada vez mais o solo, agravando um cenário que já se esperava complicado. O presidente da Associação Nacional de Agricultores (NFU, na sigla em inglês), Tom Bradshaw, avisou que isto poderá levar a escassez alimentar no país e que instou o Governo britânico a tomar medidas. Em declarações à BBC Radio 4, citado pelo mesmo jornal, Bradshaw referiu que os agricultores deveriam contar com benefícios fiscais para construir sistemas de armazenamento de água nas suas terras, a fim de se prepararem para os anos que se avizinham.

“Os outros países em todo o mundo de que atualmente dependemos para produzir os nossos alimentos e legumes também estão a sofrer alterações climáticas”, salientou. “Parece mesmo que vai haver alguma escassez de produtos [alimentares]”, alertou.

“Vamos traçar uma linha na areia e garantir que damos prioridade à produção alimentar nacional para impulsionar o crescimento em todo o Reino Unido”, disse ainda o responsável.

Os cereais, como o trigo e a cevada, têm sido particularmente afetados, segundo o Conselho de Desenvolvimento da Agricultura e Horticultura (AHDB).

Portugal praticamente não importa cereais do Reino Unido – os últimos números dão conta de que a quota britânica nas importações nacionais é residual, não tendo impacto estrutural na segurança alimentar. A pressão da escassez naquele país deverá recair sobretudo sobre países como França, Hungria, Espanha ou Alemanha, países que terão de suprir o défice britânico e que estão, também eles, a enfrentar escassez na produção.

No mês passado, e segundo dados do Met Office, o Reino Unido registou 8% da precipitação média para julho – o que, possivelmente, confirmará que este será o julho mais seco de que há registo. Foram implementadas várias medidas para tentar mitigar a seca, nomeadamente através da proibição de regas e utilização de água para fins recreativos, numa altura em que o país continua em alerta devido às temperaturas elevadas e aos incêndios.

Gavin Lane, presidente da Country, Land and Business Association, avisou por seu lado que, para muitos agricultores, esta poderá ser a sua última colheita.

“Os agricultores dizem-nos que esta é a pior colheita dos últimos anos. Um inverno chuvoso, seguido de seca, deixou o trigo com metade da sua altura habitual e algumas culturas sem valor para a colheita”, disse citado pelo The Guardian. “Esta é a terceira seca em cinco anos. O que antes era extraordinário está a tornar-se parte integrante da agricultura na Grã-Bretanha, e o governo tem de começar a organizar-se para isso. Sabemos que um investimento governamental adequado em sistemas agrícolas resilientes, desde reservatórios até à prevenção de incêndios florestais, poderia ajudar os agricultores a lidar com estes novos fenómenos extremos”, continuou o responsável.

“Os agricultores têm demonstrado repetidamente que são capazes de se adaptar e apresentar soluções, mas a resiliência tem limites. Se queremos que continuem a alimentar o país, precisam de apoio adequado. Caso contrário, esta colheita poderá ser a última”, salientou ainda.

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