Roteiro Nova Competitividade

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Na passada sexta, realizei no Biocant, em Cantanhede, a última sessão desta primeira fase do Roteiro Nova Competitividade que celebra 40 anos de escrita. Desde Lisboa a Madrid, passando por Paris e pelo Porto, muitas têm sido as mensagens que temos partilhado e discutido neste roteiro. Apesar da evolução positiva registada em muitas áreas, o certo é que continuamos a ter índices muito baixos em fatores chave como são a qualificação, produtividade, capacidade de ter escala e outros associados. Tínhamos como economia e como sociedade a obrigação de em 2023, quarenta anos depois, estarmos mais à frente nesta agenda de valor global e importa por isso acelerar a mudança para o futuro que aí vem.

No atual panorama de análise da situação económica de Portugal, há duas clarificações a fazer. Primeiro, a crise de crescimento atua está claramente associada à pandemia nas suas diferentes dimensões - mas não podemos esquecer que a não convergência para a média de rendimento per capita da UE dura há mais de duas décadas e, por isso, em paralelo àquele fenómeno imprevisto, há um problema estrutural em Portugal. Segundo, se existe um problema específico no País, na sua estrutura económica, coloca-se a questão de como o resolver e se é possível resolvê-lo com relativa probabilidade de sucesso, dada a abertura da nossa economia e as redes desenvolvidas nos últimos anos.

Portugal não consegue atingir os níveis de produtividade da EU e isto é uma condição sine qua non para se atingir os grandes objetivos de prosperidade, solidariedade e qualidade de vida. Como é que vamos além dos grandes números (PIB por habitante) e identificamos as variáveis concretas que vão propiciar aquela convergência? Como é que se passa do debate macroeconómico para o chão das empresas?

Em primeiro lugar, um estudo recente da OCDE e o Anuário do INE já identificaram causas para a falência do modelo atual, de onde se salienta:

a) um modelo exportador, mas que é reativo relativamente aos mercados e relativamente pobre em valor acrescentado;

b) uma crença no IDE sem a adequada incorporação de produção ou decisão nacional naquilo que faz;

c) transferência de mão de obra e capital para atividades de baixo valor acrescentado;

Numa frase, com este modelo obtivemos um País de baixa produtividade e muito dependente do exterior, porque implementámos mal o que parecia ser uma boa receita: exportações; infraestruturas; atração de capital estrangeiro via investimentos e via turistas. Impõe-se - por agora a título de ideias em discussão - corrigir o rumo e a posição dos protagonistas do processo de desenvolvimento do País, em ordem a obter um modelo mais assertivo e mais eficaz. As variáveis para esse processo, com base em dados do Fórum Económico Mundial e para o caso Português, são:

a) aumentar as exportações no PIB, mas fazê-lo porque se trabalha para clientes mais exigentes. Abandonar a captação de clientes baseada nas vantagens de preço baixo e procurar os clientes mais sofisticados - pagam mais pelo valor acrescentado e ainda nos desafiam a modernizar e a aumentar os nossos padrões de exigência a vários níveis. Isto reforçará fatores de competitividade baseados em recursos e capacidades únicos, flexíveis e valiosos, por oposição aos modelos mecânicos, lineares, baseados na minimização de custos;

b) apostar na dinamização de indústrias de bens transacionáveis de média e alta intensidade tecnológica, procurando envolvê-las com os grandes investimentos de IDE. Isto reforçará o capital empreendedor, normalmente em micro e médias empresas/projetos, e contribuirá para a fixação de conhecimento, ganhos económicos e aumentos nos centros de decisão Portugueses;

c) apostar na educação superior e na formação. Mas isto não significa elevar o número de diplomados por si. Significa promover o grau de utilidade da educação/formação para as empresas. Atualmente assiste-se à emigração de talentos ou ao subemprego de licenciados, por falta desta relação entre centros de formação e empresas. A solução não é um "superplano" que aponte as áreas prioritárias - isto é ineficaz. É antes introduzir concorrência e liberdade de opção entre as escolas, universidades e centros de formação, para além dos investimentos em estrutura e nas pessoas dessas instituições. Rapidamente os benefícios da internalização de mecanismos de mercado serão transpostos para outras áreas de welfare;

d) o Setor Público consome, em despesa total, uma parte importante do PIB Português. É preciso refletir muito seriamente sobre tomar uma de duas opções: ou este número se reduz para níveis mais eficientes, com a necessária revisão das funções do Estado; ou o Setor Público aprende a tornar-se mais produtivo e devolve à Sociedade, em serviços públicos e em bem-estar, tanto ou mais quanto lhe cobra em impostos.

Quarenta anos depois, precisamos de apostar numa Nova Competitividade, centrada em fatores estruturantes que mobilizem a sociedade e a economia para uma nova agenda inteligente.

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