Óscar Quevedo: "30% das empresas de vinho vão desaparecer nos próximos 10 anos”

A Quevedo exporta 90% do que produz e continua a fazer planos a uma década. Se tudo correr bem, o Butão será o seu 46º mercado externo
Óscar Quevedo: "30% das empresas de vinho vão desaparecer nos próximos 10 anos”
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Para este economista feito gestor da empresa familiar, que já fatura alguns milhões ao ano, o cenário não é catastrófico, mas é claro: com a diminuição do consumo, as diretivas da Organização Mundial de Saúde e a letargia da indústria para responder aos desafios dos tempos atuais, cerca de um terço das empresas de vinho que existem atualmente vão desaparecer na próxima década. “Não é uma questão de qualidade”, insiste em sublinhar. “É por uma questão de quantidade. Há triliões de marcas… o mercado não tem capacidade para isto”, avisa.

Aos 42 anos, Óscar Quevedo é, com a irmã Cláudia, o rosto de uma empresa jovem que produz vinhos de mesa, mas que começou com, e se tem afirmado no, vinho do Porto. E se nunca ouviu falar da marca, não é de estranhar. Até há dois anos, a Quevedo, que foi oficialmente fundada nos anos 1990, exportava 94% do que produzia. Reduziu esse número para os 90%, e espera poder vender mais em mercado nacional nos próximos anos. Mas se não vender, não é problemático. Tem atualmente os seus vinhos em 45 países, e espera conseguir entrar no Butão muito em breve.

Questionado pelo DV sobre o porquê desta inusitada - ou pelo menos, surpreendente - escolha geográfica, é perentório: “Tem um turismo de elevada qualidade, porque cobra taxas diárias muito elevadas e, apesar de a população não beber muito, as unidades hoteleiras, de topo, são para o público que queremos. Portanto, faz sentido”, justifica.

Mas para perceber esta forma de olhar o mundo e o negócio é preciso ir até São João da Pesqueira e às primeiras propriedades da família, que acima de tudo serviam para produzir uvas que eram depois vendidas para produção de vinho do Porto. Os iniciais 14 hectares transformaram-se, décadas mais tarde, em 104 hectares, que hoje em dia, se traduzem em vinhos do Porto, de mesa e contam também com oliveiras.

“Para os meus pais, o vinho era um passatempo. Felizmente, não precisavam, nem queriam, viver disto. Tinham bons empregos, mas cuidaram sempre da propriedade por gosto.”

A empresa é constituída em 1990 para aproveitar a entrada de Portugal na União Europeia e os benefícios que daí advieram, porque os pais de Óscar e Cláudia perceberam que lhes era mais rentável produzir vinho por si do que vender as uvas. A primeira adega data do final dos anos 1980, mas o negócio continuava a ser pouco mais do que algo que faziam aos finais de semana.

Até que, depois de alguns anos a viver na Suíça e em Madrid, e após da morte do avô - “era o meu melhor amigo” -, Óscar percebe que o mundo das Finanças e o M&A não é o que lhe enche as medidas. “Trabalhei em bons bancos, na Suíça, trabalhei na banca privada, tinha condições espetaculares para viver e era um miúdo, com 20 e poucos anos. Mas achava que precisava de ter as mãos na terra. Eu nasci na Pesqueira, cresci lá. Em 2009 falei com a minha mulher - espanhola, com quem namorava na altura -, e sugeri-lhe que viéssemos para Portugal. Chegámos a um compromisso: podíamos mudar-nos, mas ficávamos a viver no Porto, para ela conseguir trabalhar, porque realmente no Douro seria mais complicado…”, conta, divertido.

Cláudia e Óscar Quevedo ladeiam os pais, Óscar e Beatriz, no Douro
Cláudia e Óscar Quevedo ladeiam os pais, Óscar e Beatriz, no DouroFABRICA DA FOTOGRAFIA

Preparou-se para a conversa com os pais que, acreditava, não iam achar grande graça à ideia de querer tomar conta da empresa, e surpreendeu-se com a reação. “Aproveitei que estávamos na cozinha, a prepararmo-nos para tomar o pequeno-almoço, escolhi imenso as palavras e o meu pai respondeu ‘Ok!’ e continuou a fazer torradas”, conta com uma gargalhada.

Atualmente, Óscar gere a empresa enquanto Cláudia, a irmã, assina a enologia das referências que produzem. Procuram, acima de tudo, qualidade. “Temos um certo cuidado na produção de vinhos. Colocamos redes de ensombramento nas vinhas mais importantes e mais quentes, o que nos permite reduzir dois graus de temperatura, aumentamos a humidade, reduzimos o enfraquecimento…”, enumera Óscar, sentado no espaço que a Quevedo decidiu comprar no início de 2020, em Gaia. “Fazemos o nosso próprio composto, com os engaços triturados, com folhas de oliveira, excrementos de cabra…e na adega também temos outros cuidados, desde a escolha das uvas aos tempos de contacto pelicular e aos estágios em madeira.”

Essa área pode ser da irmã, mas o compromisso é de ambos. “Damo-nos bem. Cada um faz o que tem a fazer, respeitamo-nos, podemos discordar, mas deixamos o outro trabalhar porque temos o mesmo objetivo comum.”

A Quevedo posiciona-se num patamar médio alto e é aí que quer continuar. Até porque, adianta Óscar, para a empresa familiar que já emprega cerca de 50 pessoas, é muito óbvio que é preciso qualidade, constância e serenidade para se manter no negócio. “Quero, daqui a dez anos, estar a faturar mais, mas nem sequer o dobro. Quero crescer e sustentadamente.”

Na manga tem alguns trunfos, como “bastante stock de Porto branco” , algo que passou décadas a ser rejeitado pelo mercado e que agora parece encontrar o seu lugar, junto de consumidores que procuram um vinho do Porto que se afaste da imagem clássica. “Temos vinhos brancos de 10, 30, 50 anos… temos um de 1986 que é uma maravilha”, conta Óscar enquanto passa os olhos pela sala, cheia de turistas à procura da melhor experiência vínica.

Aqui, em Gaia - “onde tínhamos de estar, porque nem toda a gente quer ir a São João da Pesqueira” - , a Quevedo aposta também nos cocktails com vinho do Porto, para chegar às gerações mais novas, que vão muito além do Porto tónico. “Temos de descontrair o vinho do Porto”, avisa.

As propriedades da Quevedo somam agora 104 hectares de terreno, em São João da Pesqueira
As propriedades da Quevedo somam agora 104 hectares de terreno, em São João da PesqueiraFABRICA DA FOTOGRAFIA

Ciente da crise profunda que assola a região, Óscar é perentório na sua análise: “Estamos a fazer muita coisa mal. Pagamos mal às pessoas - não há falta de pessoas para trabalhar se lhes pagarmos bem. Ninguém se vai embora para ganhar menos -, não arrancamos vinha, que é o que estão a fazer países como França, EUA… enfim, não fazemos promoção. Continuamos a produzir para o consumo de há 30 anos, quando o consumo está em mínimos. Temos de ser dinâmicos a perceber o que funciona, e temos de agir”, insta.

“Falhamos muito nisso. O IVDP tem mandato e dinheiro. Acontece é que é um instituto público e depois há imensa coisa que trava na burocracia”, considera. “Falta vontade política.”

E é por isso, também, que considera que daqui a dez anos, um terço das empresas produtoras não estará a operar. Porque, lembra, “não há controlo sobre os subsídios atribuídos, muitas vezes”, e porque na verdade “há falta de vontade” para se fazer diferente.

Para Óscar, contas continuam a ser contas e as empresas rentáveis são as que combinam agilidade com contas certas, visão de futuro e compreensão do mercado.

A história não pesa?, pergunta o DV. “Pesa. Mas ser jovem significa que tenho uma empresa muito mais ágil para responder aos desafios do futuro. E tenho cinco gerações de história para contar”, continua despreocupado.

Lá fora, o calor continua a aumentar, e o Douro brilha no quente sol de um verão que chegou em força, e que ninguém sabe o que fará às uvas da região. Será o prenúncio de mais uma crise ou uma oportunidade para fazer diferente?

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