

Para este economista feito gestor da empresa familiar, que já fatura alguns milhões ao ano, o cenário não é catastrófico, mas é claro: com a diminuição do consumo, as diretivas da Organização Mundial de Saúde e a letargia da indústria para responder aos desafios dos tempos atuais, cerca de um terço das empresas de vinho que existem atualmente vão desaparecer na próxima década. “Não é uma questão de qualidade”, insiste em sublinhar. “É por uma questão de quantidade. Há triliões de marcas… o mercado não tem capacidade para isto”, avisa.
Aos 42 anos, Óscar Quevedo é, com a irmã Cláudia, o rosto de uma empresa jovem que produz vinhos de mesa, mas que começou com, e se tem afirmado no, vinho do Porto. E se nunca ouviu falar da marca, não é de estranhar. Até há dois anos, a Quevedo, que foi oficialmente fundada nos anos 1990, exportava 94% do que produzia. Reduziu esse número para os 90%, e espera poder vender mais em mercado nacional nos próximos anos. Mas se não vender, não é problemático. Tem atualmente os seus vinhos em 45 países, e espera conseguir entrar no Butão muito em breve.
Questionado pelo DV sobre o porquê desta inusitada - ou pelo menos, surpreendente - escolha geográfica, é perentório: “Tem um turismo de elevada qualidade, porque cobra taxas diárias muito elevadas e, apesar de a população não beber muito, as unidades hoteleiras, de topo, são para o público que queremos. Portanto, faz sentido”, justifica.
Mas para perceber esta forma de olhar o mundo e o negócio é preciso ir até São João da Pesqueira e às primeiras propriedades da família, que acima de tudo serviam para produzir uvas que eram depois vendidas para produção de vinho do Porto. Os iniciais 14 hectares transformaram-se, décadas mais tarde, em 104 hectares, que hoje em dia, se traduzem em vinhos do Porto, de mesa e contam também com oliveiras.
“Para os meus pais, o vinho era um passatempo. Felizmente, não precisavam, nem queriam, viver disto. Tinham bons empregos, mas cuidaram sempre da propriedade por gosto.”
A empresa é constituída em 1990 para aproveitar a entrada de Portugal na União Europeia e os benefícios que daí advieram, porque os pais de Óscar e Cláudia perceberam que lhes era mais rentável produzir vinho por si do que vender as uvas. A primeira adega data do final dos anos 1980, mas o negócio continuava a ser pouco mais do que algo que faziam aos finais de semana.
Até que, depois de alguns anos a viver na Suíça e em Madrid, e após da morte do avô - “era o meu melhor amigo” -, Óscar percebe que o mundo das Finanças e o M&A não é o que lhe enche as medidas. “Trabalhei em bons bancos, na Suíça, trabalhei na banca privada, tinha condições espetaculares para viver e era um miúdo, com 20 e poucos anos. Mas achava que precisava de ter as mãos na terra. Eu nasci na Pesqueira, cresci lá. Em 2009 falei com a minha mulher - espanhola, com quem namorava na altura -, e sugeri-lhe que viéssemos para Portugal. Chegámos a um compromisso: podíamos mudar-nos, mas ficávamos a viver no Porto, para ela conseguir trabalhar, porque realmente no Douro seria mais complicado…”, conta, divertido.
Preparou-se para a conversa com os pais que, acreditava, não iam achar grande graça à ideia de querer tomar conta da empresa, e surpreendeu-se com a reação. “Aproveitei que estávamos na cozinha, a prepararmo-nos para tomar o pequeno-almoço, escolhi imenso as palavras e o meu pai respondeu ‘Ok!’ e continuou a fazer torradas”, conta com uma gargalhada.
Atualmente, Óscar gere a empresa enquanto Cláudia, a irmã, assina a enologia das referências que produzem. Procuram, acima de tudo, qualidade. “Temos um certo cuidado na produção de vinhos. Colocamos redes de ensombramento nas vinhas mais importantes e mais quentes, o que nos permite reduzir dois graus de temperatura, aumentamos a humidade, reduzimos o enfraquecimento…”, enumera Óscar, sentado no espaço que a Quevedo decidiu comprar no início de 2020, em Gaia. “Fazemos o nosso próprio composto, com os engaços triturados, com folhas de oliveira, excrementos de cabra…e na adega também temos outros cuidados, desde a escolha das uvas aos tempos de contacto pelicular e aos estágios em madeira.”
Essa área pode ser da irmã, mas o compromisso é de ambos. “Damo-nos bem. Cada um faz o que tem a fazer, respeitamo-nos, podemos discordar, mas deixamos o outro trabalhar porque temos o mesmo objetivo comum.”
A Quevedo posiciona-se num patamar médio alto e é aí que quer continuar. Até porque, adianta Óscar, para a empresa familiar que já emprega cerca de 50 pessoas, é muito óbvio que é preciso qualidade, constância e serenidade para se manter no negócio. “Quero, daqui a dez anos, estar a faturar mais, mas nem sequer o dobro. Quero crescer e sustentadamente.”
Na manga tem alguns trunfos, como “bastante stock de Porto branco” , algo que passou décadas a ser rejeitado pelo mercado e que agora parece encontrar o seu lugar, junto de consumidores que procuram um vinho do Porto que se afaste da imagem clássica. “Temos vinhos brancos de 10, 30, 50 anos… temos um de 1986 que é uma maravilha”, conta Óscar enquanto passa os olhos pela sala, cheia de turistas à procura da melhor experiência vínica.
Aqui, em Gaia - “onde tínhamos de estar, porque nem toda a gente quer ir a São João da Pesqueira” - , a Quevedo aposta também nos cocktails com vinho do Porto, para chegar às gerações mais novas, que vão muito além do Porto tónico. “Temos de descontrair o vinho do Porto”, avisa.
Ciente da crise profunda que assola a região, Óscar é perentório na sua análise: “Estamos a fazer muita coisa mal. Pagamos mal às pessoas - não há falta de pessoas para trabalhar se lhes pagarmos bem. Ninguém se vai embora para ganhar menos -, não arrancamos vinha, que é o que estão a fazer países como França, EUA… enfim, não fazemos promoção. Continuamos a produzir para o consumo de há 30 anos, quando o consumo está em mínimos. Temos de ser dinâmicos a perceber o que funciona, e temos de agir”, insta.
“Falhamos muito nisso. O IVDP tem mandato e dinheiro. Acontece é que é um instituto público e depois há imensa coisa que trava na burocracia”, considera. “Falta vontade política.”
E é por isso, também, que considera que daqui a dez anos, um terço das empresas produtoras não estará a operar. Porque, lembra, “não há controlo sobre os subsídios atribuídos, muitas vezes”, e porque na verdade “há falta de vontade” para se fazer diferente.
Para Óscar, contas continuam a ser contas e as empresas rentáveis são as que combinam agilidade com contas certas, visão de futuro e compreensão do mercado.
A história não pesa?, pergunta o DV. “Pesa. Mas ser jovem significa que tenho uma empresa muito mais ágil para responder aos desafios do futuro. E tenho cinco gerações de história para contar”, continua despreocupado.
Lá fora, o calor continua a aumentar, e o Douro brilha no quente sol de um verão que chegou em força, e que ninguém sabe o que fará às uvas da região. Será o prenúncio de mais uma crise ou uma oportunidade para fazer diferente?