

Morreu na terça-feira à noite, 26 de dezembro de 2024, o incontornável e polémico político e antigo ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble. Tinha 81 anos e sofria de cancro.
Schäuble, um histórico do centro direita, da União Democrata-Cristã (CDU, na sigla em alemã), foi a personificação das políticas de disciplina máxima das contas públicas e da economia (austeridade) durante os anos de chumbo da crise soberana (de 2010 a 2014) que fez capitular vários países nos mercados, empurrando-os para a bancarrota (Portugal, Grécia, Irlanda, o setor bancário de Espanha) e que ia fazendo implodir a Zona Euro como um todo.
Wolfgang Schäuble ocupou quase todos os cargos possíveis na sua ascensão ao poder máximo na Alemanha, que alcançou como todo-poderoso ministro das Finanças do maior país da Zona Euro no período de 2009 a 2017, nos governos da chanceler Angela Merkel.
Antes da tutela das Finanças foi deputado da CDU (desde 1972), foi ministro do Interior, um período conturbado, sobretudo para ele, tendo sido alvo de uma tentativa de assassinato, à qual sobreviveu, em 1990, deixando-o numa cadeira de rodas.
Em 2009, assume o comando das Finanças alemãs como o mais velho governante que alguma vez ocupara esse cargo: tinha 67 anos e daí a um ano começaria a crise da Zona Euro, que Schäuble usou para impor muitas das sua ideia do que devia ser uma união monetária entre países.
Sucessivos comentários e posições duras de Schäuble em relação à forma como os países chegaram à crise e sobre a responsabilidade dos governos nessa situação viriam a ajudar a formar uma ideia de Europa muito fragmentada, a dois tempos, dividida entre norte e sul, ricos e pobres, uma Europa muito menos solidária do que se defende nos tratados fundadores da União.
De um lado, os países e os europeus frugais e aforradores, os do norte e do centro da Europa (como Alemanha, Holanda, Finlândia...), do outro, os gastadores, endividados e cujo único remédio para a sua situação teria de passar por "dificuldades" e aceitação de "sacrifícios", de políticas de saneamento muito duras, como veio a acontecer.
Era a solução da austeridade, que Schäuble defendeu ao máximo, juntamente com outros.
Em Portugal, o programa de ajustamento da troika (Comissão Europeia, BCE e FMI), onde foram vertidas muitas das ideias austeritárias defendidas por Schäuble, haveria ser aplicado pelo governo PSD-CDS, de Pedro Passos Coelho, que iria até além de algumas metas exigidas pela missão da troika e dos credores.
Em troca, o país receberia fundos, cerca de 78 mil milhões de euros em empréstimos da Europa e do FMI, para poder pagar aos grandes credores da República e financiar as tão elogiadas reformas estruturais mais profundas, como medidas para cortar e racionalizar os serviços públicos e salários dos funcionários, as pensões dos mais velhos e dependentes, como a compressão dos défices e das dívidas, como as sucessivas revisões do Código do Trabalho que reduziram direitos até então existentes, como o valor das compensações por despedimento, como o valor e a duração do subsídio de desemprego, como os cortes no número de feriados (quatro deles foram suprimidos durante anos), etc.
A ideia de Schäuble e da então nomenclatura europeia era tornar esses países gastadores viáveis e sustentáveis através de um programa de desvalorização interna e bastante cavada das respetivas economias, nomeadamente e como referido, através do corte de salários e pensões, garantindo que a prioridade seria o pagamento das dívidas aos grandes credores, protegendo a "estabilidade" do sistema financeiro e dos bancos, mas provocando uma onda de empobrecimento, de perda de poder de compra, de perda de empregos, uma nova vaga de emigração, como sucedeu nesses anos.
Neste processo, a conjuntura dominante na fase mais agressiva do ajustamento foi, de facto, a recessão, que produziria mais desemprego (como aconteceu), puxando os rendimentos ainda mais para baixo, tornando as economias mais baratas e apetecíveis aos olhos dos investidores internos, como se viu pelo fluxo avassalador de privatizações que ocorreu durante esse período de 2011 a 2015, em Portugal.
Neste tempo, os países intervencionados ficaram de rastos, por assim dizer. O primeiro, a Grécia, acusou uma recessão média de 4% em termos reais nestes cinco anos de chumbo. A taxa de desemprego ultrapassou os 24% da população ativa. E o país assumiu tanta dívida, que o rácio de Maastricht piorou para quase 177% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados da Comissão Europeia.
O caso de Portugal, que aderiu ao resgate no início de 2011 pela mão do governo PS de José Sócrates, a recessão média destes anos foi de quase 1%, o desemprego médio chegou a quase 15% nestes cinco anos, o peso da dívida ultrapassou os 131% do PIB, problema que ainda hoje o país tenta resolver.
Em 2012, Schäuble apareceria quase como um profeta dessa ideia do ajustamento via emagrecimento dos países gastadores e endividados, a via da austeridade e do sacrifício económico e social para, depois da cura, se poder relançar um novo ciclo de crescimento, já com menos défice e dívida.
A Grécia, que tinha sido o primeiro Estado intervencionado, nunca cairia nas boas graças de Schäuble devido à fortíssima contestação interna e resistência da parte do partido no poder, de esquerda, o Syriza, em aplicar ponto por ponto, e sem reclamar, o programa de austeridade idealizado.
Schäuble e Gaspar
Foi nessa altura, no início de 2012, em plena e grave crise de fragmentação da Zona Euro, onde a especulação dos mercados globais já apostava em quebrar a dívida de Itália e até de França, que Portugal começou a ser visto como o "bom exemplo", o bom aluno.
É dessa altura, uma das mais negras da História do euro, a mensagem de apoio da Alemanha de Schäuble ao então ministro das Finanças de Portugal, Vítor Gaspar (depois promovido para diretor departamental do FMI), caso a situação se tornasse incomportável em termos de aplicação do pacote de austeridade.
Cético e algo contrariado relativamente aos planos dos gregos para a economia e as finanças públicas, Schäuble sossegou o ministro português (a conversa foi apanhada de forma desprevenida por um microfone da TVI), dizendo que primeiro "é crucial" resolver a questão da dívida Grécia e da aplicação do programa de ajustamento combinado, mas que depois de garantida esta parte, "se houver necessidade de ajustar o programa de Portugal, estaremos prontos para o fazer", declarou o governante alemão, ao que Gaspar, de cabeça baixa para pedir e ouvir melhor, respondeu logo "muito obrigado".
Estávamos em fevereiro de 2012 e Schäuble continuaria na sua postura divisória na Zona Euro entre melhores e piores, o que nunca terá ajudado a reduzir o risco de fragmentação e de implosão da área da moeda única.
Este rumo sombrio e autodestrutivo do projeto europeu só seria interrompido, em julho de 2012, pelo presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, quando disse a uma plateia de dirigentes da alta finança global, em Londres, que o BCE estaria pronto a defender a integridade da Zona Euro "custe o que custar".
Foi o célebre discurso do "whatever it takes", que acabou por marcar o ponto de viragem (para melhor) na crise da Zona Euro.
Não que isso demovesse Schäuble no seu antagonismo em relação à Grécia, tendo inclusive surgido informações de que sugeriu que o melhor seria que país saísse da Zona Euro. Estávamos em plena crise do grexit em 2015.
A Grécia não saiu do euro, como se sabe, e Portugal saiu do programa de ajustamento em junho de 2014, com elogios e sem ter de recorrer ao dinheiro todo que estava previsto.
Schäuble e o PS
Já na reta final do seu mandato como líder das finanças germânicas, em 2016, Schäuble haveria de admoestar novamente Portugal, agora que o país estava no início de um ciclo, com um novo governo de maioria PS.
Segundo noticiaram a Reuters e a Bloomberg em junho de 2016, Schäuble disse numa conferência em Berlim que Portugal podia necessitar de um novo programa de ajustamento e, se fosse esse o caso, teria o apoio da Alemanha.
Essas notícias caíram como uma bomba em Portugal, que estava a tentar reerguer-se dos anos da austeridade e a descolar da pele de intervencionado e mau pagador. E caiu mal na Zona Euro, por se temer que este género de ideias pudesse propagar novamente uma onda de choque e ataques aos sobenanos nos mercados internacionais.
Schäuble tentaria esclarecer tudo. "Os portugueses não querem um segundo resgate e não vão precisar dele se cumprirem as regras europeias", "mas eles têm de cumprir as regras europeias ou então vão ter dificuldades", declarou.
Ainda em 2016, o ministro alemão voltaria a picar o governo socialista de António Costa, já há um ano no poder, dizendo que "Portugal estava a ter muito sucesso até à chegada de um novo Governo [PS]".
Era o seu comentário aos resultados do governo do PSD-CDS, desde 2011, e que ganhou a eleições no final de 2015, mas que, no entanto, não conseguiu formar governo porque o PS fez um acordo parlamentar com a esquerda (PCP, PEV e BE), garantindo uma maioria estável, a chamada geringonça.
Schäuble e Centeno
Em 2017, já na reta da meta como ministro mais temido e poderoso da Zona Euro, Schäuble lá teria um assomo de alguma simpatia para com Portugal, designadamente para o seu homólogo de então, Mário Centeno.
Centeno, no seu primeiro ano como ministro das Finanças (2016), conseguira baixar o défice português para menos de 3% do PIB, para 1,9%.
Entraria assim na História. Era a primeira vez, desde que aderira à Zona Euro, que o país podia dizer que estava finalmente a cumprir o Pacto de Estabilidade na regra-mor do défice. A dívida muito elevada, 131% em 2016, mas também começava a cair de forma significativa.
Citado pelo jornal Politico, Schäuble teria comentado numa reunião de ministros das Finanças, em Bruxelas, que "há 12 meses, era tudo tão diferente. Portugal estava à beira das sanções económicas da União Europeia e o sucesso do seu novo Governo de coligação de Esquerda estava longe de ser assegurado. Hoje, já não viola as regras orçamentais da União Europeia e espera entregar antecipadamente 10 mil milhões de euros ao FMI". "É o Ronaldo do Ecofin", chutou o alemão.
O Jornal de Negócios haveria de confirmar o episódio junto de fonte de Berlim. "À margem do encontro dos ministros das Finanças em Bruxelas, o ministro Schäuble teve uma conversa sobre futebol e a estrela portuguesa de futebol Cristiano Ronaldo. Num reparo descontraído e amigável, o ministro notou que o conselho do Ecofin também tem uma estrela portuguesa: o ministro Centeno," afirmou a fonte ao jornal português.
"Quem quer que disse isso, por uma vez não pensou mal", comentou na altura o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
Centeno vestiria depois, já em dezembro de 2017, não a camisola de Ronaldo, mas sim o fato de presidente do Eurogrupo, o conselho europeu dos ministros das Finanças da Zona Euro.
Wolfgang Schäuble já não estaria para ver o desempenho do português nessa mesa de altas decisões pois deixaria de ser ministro das Finanças a 24 de outubro de 2017.
Seria depois eleito presidente do Bundestag, o Parlamento alemão, até 2021, o último cargo de relevo que ocupou antes de morrer.