Silly season 2.0

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Não sei se por força das alterações climáticas, se como resultado dos saldos da "Black Friday", a "silly season" reapareceu, em pleno, no fim da semana passada. O tema? O putativo cancelamento dos contratos com algumas universidades americanas, no âmbito dos quais se desenvolviam programas de cooperação, com universidades portuguesas, relevantes para a evolução da ciência e inovação em Portugal. O ruído teve na origem alguma incúria e má comunicação por parte do ministério da tutela. Expirando os ditos contratos no fim do ano, surgiu a notícia (boato?) que Elvira Fortunato teria decidido não os renovar. Vai daí, caiu o Carmo e a Trindade (uma expressão adequada já que a pretensa polémica quase se reduziu ao universo lisboeta). A ministra foi acusada de crime de lesa-pátria, de provincianismo (logo ela que tem uma estabelecida reputação internacional) e outros epítetos, mais ou menos, contundentes. Sem a dita prorrogação o país empobreceria, perdia o comboio da inovação, eu sei lá, retrocederia ao tempo do anterior regime.

Tarde e más horas, o ministério lá veio esclarecer que apenas se tinha proposto renegociar os termos dos contratos, deixando a decisão final para o próximo governo. A coisa até teria sido feita como deve ser: por mais que tenhamos a intuição de que os programas têm sido proveitosos, justifica-se sempre uma avaliação objetiva que pondere a respetiva relação benefícios-custos. No caso, haveria uns pareceres, mais corporativos e míopes (dos Reitores: aquele dinheirão dava-lhes muito jeito!) ou mais isentos (de um grupo de peritos e personalidades que, ao que consegui perceber, já que estas coisas são sempre confidenciais, recomendavam renovar, mas revendo âmbito, prioridades e condições).

Para além do espalhafato mediático, típico da "silly season", este episódio é paradigmático de um erro de fundo da política portuguesa: as decisões não podem ser baseadas em modas, palpites, em "achismos", em evidências circunstanciais. Eu, também, acho o programa relevante e que se justificaria a renovação. Porém, ao contrário de muitos dos que se pronunciaram, tenho a humildade de reconhecer que uma opinião fundada requer acesso a uma análise sistemática do programa, a um diagnóstico dos erros cometidos, do que se propõe corrigir na gestão e financiamento do programa ena orientação do mesmo. Sem isso, esta polémica foi inútil, acrescentando ruído e crispação onde ela já abunda.

Alberto Castro, economista e professor universitário

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