Ao fim de três anos de investigação, cerca de seis milhões de euros de investimento e com nove dos dez projetos iniciais concluídos, o consórcio Smart Health 4 All, liderado pelo Health Cluster Portugal e pela Siemens Healthineers deu por concluído o trabalho e apresentou os resultados esta semana. O saber acumulado foi entretanto vertido num novo consórcio, Health From Portugal, que, com um investimento de 90 milhões de euros, se propõe desenvolver 98 produtos ou serviços até ao final de 2025.
As nove soluções criadas no âmbito da Smart Health 4 All, incluem um sapato especialmente concebido para a prevenção do pé diabético - o MyCare Shoe - uma almofada e cabeceira de cama cujo propósito é monitorizar e melhorar a qualidade do sono, um dispositivo médico que permite avaliar e monitorizar o desempenho cognitivo ou biossensores que, ao garantir a monitorização remota de indicadores fisiológicos poderão apoiar futuros ensaios clínicos, realizados em ambiente doméstico.
Foram sobretudo as tecnologias TICE (Tecnologias da Informação, Comunicação e Eletrónica) a par com a sensorização, os principais recursos utilizados para desenvolver estes produtos. "Houve a combinação de tecnologias e saber fazer mais tradicionais - o sapato ou a cabeceira sensorizada são bons exemplos - com as novas tecnologias e novos materiais", explica Joaquim Cunha, diretor-executivo do Health Cluster Portugal, em declarações ao Dinheiro Vivo.
"Não tenho dúvidas em afirmar que o projeto foi conseguido e os objetivos alcançados", garante o responsável, para quem a verdadeira "prova de fogo" está agora na validação pelo mercado. "O mercado tem de aceitar os produtos desenvolvidos", afirma Joaquim Cunha.
A maioria das soluções criadas destina-se a uma utilização não-hospitalar que vai ao encontro de uma visão da saúde que, no futuro, passará de "uma saúde hospitalocêntrica para uma saúde distribuída". "Aquilo que alguns acreditam que será a nova saúde - eu incluído - passa por tirar dos hospitais quem não precisa de lá estar e usar a tecnologia para manter as pessoas no ambiente que lhes é comum", antecipa Joaquim Cunha.
Na opinião do diretor do Health Cluster Portugal, se é verdade que todas as soluções desenvolvidas no âmbito da Smart Health 4 All são produtizáveis também é um facto que o atual sistema ainda não está totalmente preparado para elas. "Estes produtos estão muito na linha da prevenção, da saúde do futuro, mas os nossos sistemas ainda estão na linha da velha saúde - da saúde centrada nos [doentes] agudos e não dos crónicos", alerta. Como exemplo, dá a prescrição e comparticipação de medicamentos. "Se eu for um médico e este recomendar o sapato para o pé de diabético, a única hipótese é comprá-lo eu, porque o sistema não tem isto previsto", refere o responsável.
Vários países europeus, como o Reino Unido, França ou a Alemanha (que, em 2019, criou o Health Care Digital Act), estão em busca de soluções. "Se quisermos olhar para a prevenção de uma forma séria, vamos ter incluir na equação a possibilidade destes produtos e serviços serem prescritos. Mas também é preciso fazer a outra parte: as empresas e as instituições académicas têm de fazer o que foi feito neste projeto, que é trazer soluções para o mercado", refere o responsável do Health Cluster Portugal.
Uma destas soluções é o MyCare Shoe, desenvolvido em conjunto pela Ortomedical, Centi, INESI, ISEP e testado no Centro Clínico Académico de Braga (2CABraga), a ala do hospital de Braga dedicada à investigação. O sapato integra tecnologia na sua estrutura que permite não só determinar os pontos que sofrem hiperpressão (tornando-se mais propensos à ulceração) como estimula a circulação sanguínea e regula a temperatura. Além do mais, o calçado está ligado a uma aplicação que visualiza em tempo real as pressões exercidas sobre o pé e ativa um sistema de alarme em caso de hiperpressão. Com 12 protótipos fabricados (dos tamanhos 39 ao 44), o modelo foi testado em doentes saudáveis e, até ao fim do ano, serão feitos testes com pacientes diabéticos.
No caso do Biossensores, a solução é composta por uma série de dispositivos que monitorizam parâmetros como a respiração, a temperatura ou o funcionamento cardíaco, associados a uma aplicação móvel que vai garantir que o estado de saúde do participante de um eventual ensaio clínico é seguido remotamente.
O conhecimento adquirido ao longo dos três anos de duração do Smart Health4 All foi determinante para a criação do Health From Portugal, a nova agenda mobilizadora do Health Cluster Portugal, que vigorará até ao final de 2025. Nas palavras de Joaquim Cunha a nova iniciativa, integrada no PRR, representa "um salto quântico" em relação à Smart Health 4All, prevendo-se que haja um maior recurso à utilização secundária dos dados na criação dos produtos que serão criados.