"Sem os meios tecnológicos fornecidos pelos teletrabalhadores pura e simplesmente não poderia ter havido teletrabalho com o sucesso que existiu ou a sua execução teria sido muito mais difícil." A frase é de César Madureira, autor do estudo que analisou o trabalho à distância na administração pública no último ano.
O investigador admitiu que "não seria uma boa notícia para o governo em funções, mas que teria de ser salientada", afirmou durante a apresentação à distância com a presença da ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, Alexandra Leitão.
A ministra acabou por reconhecer que houve esse "esforço" por parte dos funcionários públicos, elogiando a "capacidade de adaptação" da administração do Estado. Também a diretora da Autoridade Tributária e Aduaneira, Helena Borges, reconheceu que os trabalhadores que dirige - cerca de 11 mil - acabaram por colocar os equipamentos pessoais "ao serviço do país."
O autor do estudo admitiu que, neste aspeto, "há uma diferença de perceção entre os dirigentes superiores e os trabalhadores e dirigentes intermédios sobre os equipamentos", uma vez que de acordo com o inquérito, "mais de um terço dos funcionários que estiveram em teletrabalho afirmou que não lhe foi disponibilizado qualquer meio ou equipamento para trabalhar à distância e 28,3% responderam que houve uma disponibilização parcial de meios, sendo que César Madureira referiu que é preciso "clarificar o que quer dizer parcial". Apenas 34,7% afirmaram que foram disponibilizados meios para o trabalho à distância.
De acordo com o ministério liderado por Alexandra Leitão, foram gastos quase 11 milhões de euros para operacionalizar o teletrabalho na função pública.
Entre os pontos negativos, a esmagadora maioria dos inquiridos (78%) aponta a redução do contacto presencial com os colegas, mas dois terços apontam também o aumento de gastos com Internet, energia, computadores e outros elementos necessários para trabalhar em casa.
À semelhança do que acontecia no resto do país, o teletrabalho na administração pública era residual até ao aparecimento da pandemia e a obrigatoriedade do trabalho à distância. De acordo com os dados apenas cerca de 1% dos funcionários públicos estavam em teletrabalho.
"Há um estigma da parte dos dirigentes e metade dos respondentes aponta essa desvantagem", sublinhou o autor do estudo, acreditando que este é o momento para fazer "mudanças na organização do trabalho".
Na apresentação virtual do documento, a diretora da AT deu o exemplo da direção que lidera. "Antes da pandemia tinha cinco casos de teletrabalho", apontou Helena Borges que dirige cerca de 11 mil trabalhadores que agora "estão todos em teletrabalho" à exceção dos casos em que o trabalho é presencial como nas alfândegas e fronteiras externas. A diretora-geral do fisco sublinhou que no caso da AT não foi difícil passar para o trabalho à distância porque "já existia um plano de contingência em caso de catástrofe ou calamidade no país."
De entre os dirigentes presentes, o secretário-geral da Presidência do Conselho de Ministros, David Xavier, salientou que seria aquele com mais pessoas em teletrabalho. "Antes da pandemia tinha oito pessoas, em 200", indicou.