

Escreveu-se uma nova página na ‘guerra’ entre a administração de Donald Trump e a Anthropic. Mais uma vez, há implicações no panorama da geopolítica global.
Os EUA ordenaram a suspensão dos modelos de IA mais avançados da tecnológica para todos os cidadãos sem cidadania norte-americana. Em causa estão “preocupações com a segurança nacional”, que envolvem o Fable 5 e o Mythos 5. Ainda assim, a Anthropic optou por ir mais além, ao suspender os mesmos modelos para todos os utilizadores, sem exceção.
Através de um comunicado divulgado no próprio website, a empresa fez saber que a administração dos EUA, “citando autoridades da segurança nacional, emitiu uma diretiva de controlo de exportações para suspender todo o acesso ao Fable 5 ao Mythos 5 por qualquer cidadão estrangeiro, seja no interior ou fora dos EUA”.
“O efeito líquido desta ordem é que temos de suspender abruptamente o Fable 5 ao Mythos 5 para todos os nossos clientes para garantir compliance”, esclarece a Anthropic, antes de deixar uma garantia: “O acesso a todos os outros modelos não será afetado”.
A empresa sinaliza que não foi possível conhecer “detalhes das preocupações sobre segurança nacional” que conduziram à decisão da administração liderada por Donald Trump. Na perspetiva da Anthropic, a decisão poderá ter por base a descoberta de um possível método para contornar as proteções de segurança do Fable 5.
Neste âmbito, a tecnológica assegura que conhece “vulnerabilidades menores”, as quais “parecem relativamente simples”, pode ler-se no comunicado. De acordo com a própria, as semanas anteriores ao lançamento do Fable ficaram marcadas pelos trabalhos realizados em conjunto com a administração dos EUA, o Instituto de Segurança para a IA no Reino Unido e “múltiplas organizações terceiras e equipas internas (...), num total de milhares de horas”, assinala.
A decisão tomada pela administração norte-americana sublinha a tendência para pôr as prioridades dos EUA em primeiro lugar. De resto, trata-se de uma dos lemas de Donald Trump: “America First”.
Desde março, recorde-se, as duas partes têm um caso em tribunal, depois de a administração banir o uso da tecnologia da Anthropic por instituições públicas e dificultar a realização de eventuais futuros contratos públicos com a mesma. A empresa alega que em causa está uma retaliação por ter recusado permitir aos EUA usar os seus modelos para fins militares sem restrições de segurança.
Desta vez, a ideia da administração em limitar o uso de IA tem por consequência (intencional ou não) o benefício da economia norte-americana acima dos restantes blocos económicos, em linha com decisões anteriores. Na mira surge, sobretudo, a China, que compete com os EUA pela liderança neste ramo. Em simultâneo, surge também a Europa, que tenta acompanhar o ritmo, ainda que tenha um atraso considerável.
A medida da administração norte-americana põe a Europa em cheque, já que depende dos modelos de IA externos, uma vez que as empresas responsáveis pelos modelos mais avançados estão sediadas nos Estados Unidos e na China.
Dito isto, foram vários os responsáveis políticos europeus que tomaram posição sobre a matéria e, em vários casos, levantou-se a possibilidade de em causa estar precisamente o objetivo de travar outros blocos económicos que não o norte-americano. De França aos Países Baixos, passando até pelo Reino Unido (que desde 2020 não é um Estado-membro da UE), foram várias as tomadas de posição que alertam para a necessidade de isto ser um fator de alerta.
A título de exemplo, Tom Tugendhat, antigo ministro da Segurança do Reino Unido e atual deputado, disse que a decisão “não é um mal-entendido nem um erro, é o resultado inevitável de a tecnologia estar a moldar a guerra de tal forma que a soberania passa a depender mais de código do que de canhões”, sublinhou.
Tom Tugendhat alerta para os “custos de energia elevados” e assinala a necessidade de garantir a soberania tecnológica como algo que deve ser prioritário.
No mesmo tema, Benjamin Haddad, secretário de Estado francês dos Assuntos Europeus, alertou que “a Europa não se pode contentar em ser um mercado dependente de tecnologias concebidas, financiadas e controladas noutros lugares”, como é o caso dos EUA.
A Anthropic fez saber que quer “restabelecer o acesso tão cedo como possível”, ficando por saber quando é que tal poderá acontecer.