

Depois de os líderes das maiores empresas de IA terem alertado para os riscos decorrentes do rápido desenvolvimento – o cenário mais dramático é o que prevê a eliminação da espécie humana na próxima década – os investidores deixaram transparecer o seu nervosismo.
Antes da abertura dos mercados em Wall Street já gigantes como a Nvidia, Advanced Micro Devices e a Amazon registavam perdas entre os 1,4% e os 3%.
O CEO da Anthropic, Dario Amodei, apelou às empresas de IA para que abrandassem o ritmo a que desenvolvem as capacidades dos modelos, num contexto de receios crescentes quanto à utilização indevida da inteligência artificial. Tanto Elon Musk, que dirige a xAI, como Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmaram concordar com Amodei.
Altman afirmou ainda que a empresa não avançaria com uma oferta pública inicial (IPO) este ano, invocando preocupações de segurança.
Já este domingo, 13 de setembro, ficou a saber-se que o rei de Inglaterra, Carlos III, se vai reunir com os líderes das empresas de inteligência artificial mais importantes do Ocidente para questioná-los sobre como é que a tecnologia pode ser desenvolvida para “o bem da humanidade”, tal como o DN escreveu ontem.
Para além dos patrões da Nvidia, Anthropic, Google DeepMind e OpenAI, também deverá marcar presença no encontro com o monarca britânico, na Escócia, o conselheiro do papa Leão XIV para assuntos de tecnologia e inteligência artificial, Paolo Benanti.
Os avisos dos mais poderosos da IA intensificaram, por isso, nos últimos dias, o escrutínio sobre o setor, desencadeado pelo facto de as empresas recorrerem cada vez mais ao endividamento e ao financiamento circular para perseguir as suas ambições na área da IA. Isto numa altura em que aumentam as previsões de despesas e as taxas de rendibilidade atingiram máximos de vários anos.
“Se a corrida à IA abrandar significativamente, a questão fundamental passa a ser: quem paga toda essa infraestrutura? Os contratos de locação, a dívida e os compromissos de energia mantêm-se mesmo que a procura prevista de computação e o crescimento das receitas abrandem. E isso poderá introduzir cada vez mais o risco de crédito na narrativa da IA”, salientou Ipek Ozkardeskaya, analista sénior da Swissquote, citado pela Reuters.
Amodei escreveu que, dentro de seis a 12 meses, os agentes de IA “poderiam ser capazes de assumir o controlo de toda a internet, causando potencialmente centenas de milhares de milhões de dólares em prejuízos”. A Anthropic, sediada em São Francisco, divulgou na quinta-feira um relatório de inteligência sobre ameaças que detalha como vários intervenientes utilizaram os seus modelos de IA Claude para atividades que vão desde o desenvolvimento de armas e operações cibernéticas até à vigilância e à fraude.
O alarme sobre os potenciais danos causados pela IA aumentou quando o investigador da Anthropic, Jacob Coxon, se demitiu, afirmando que “as pessoas que estão a desenvolver a IA acreditam sinceramente que esta poderá matar-nos a todos até ao final da década”. Altman, da OpenAI, afirmou numa entrevista que os riscos de extinção humana representados pela IA eram “inaceitáveis”.
Trump mantém o rumo
O presidente dos EUA, Donald Trump, por seu lado, comparou os críticos da IA a “forças muito negativas” que evocam cenários que não irão acontecer, e afirmou que queria garantir que os EUA continuassem a ser líderes do setor.
As transações relacionadas com a IA têm impulsionado grande parte dos ganhos nos mercados acionistas globais desde que a OpenAI lançou o ChatGPT em 2022, mas, mais recentemente, os ciberataques por parte de agentes de IA rebeldes e o descontentamento público com a construção de centros de dados têm suscitado oposição ao desenvolvimento do setor. Espera-se que os governos dos EUA e da China realizem conversações sobre a segurança da IA no âmbito das discussões bilaterais que terão lugar este mês, de acordo com duas pessoas a par dos planos.
“A questão fundamental é saber se este será o primeiro sinal de que o extraordinário ciclo de investimento em IA poderá, eventualmente, abrandar. Por enquanto, isso parece improvável. A corrida competitiva entre empresas e países continua intensa, e é difícil imaginar que as empresas recuem voluntariamente enquanto os rivais continuam a avançar”, afirmou o Deutsche Bank numa nota de análise citada pela mesma agência Reuters.
Quase a ecoar essa concorrência acirrada, a Anthropic, de Amodei, avançou com a sua estreia em bolsa, prevista para o próximo mês, uma vez que fontes revelaram à Reuters que a empresa está em negociações para trazer a Nvidia como investidor âncora.
Ainda assim, é provável que os alertas continuem a pesar sobre o mercado.