Ex-diretor-executivo do grupo da família, a Atri, saiu há nove anos para fundar a Allma, com um sócio. Tem 26 concessionárias por todo o Estado de São Paulo, e não só, com faturação de 200 milhões de reais por mês [35 milhões de euros], equivalentes a cerca de 2,5 mil milhões por ano [430 milhões de euros].
Dedica-se agora à recém-inaugurada loja da Denza, segmento de luxo da marca chinesa BYD em parceria com a Mercedes Benz. “O mercado automóvel reflete o humor do país: e o humor do país mostra que o brasileiro está cauteloso e sem dinheiro. Em 2012, vendíamos três milhões e 600 mil carros por ano, na pandemia baixámos dos dois milhões e agora estamos em 2,5”, começa por resumir ao DV.
Qual o maior problema para um empresário no Brasil hoje?
O crédito. Um país onde os governos deixam, há 30 anos, a taxa de juros superar os dois dígitos não foi feito para deixar as empresas darem certo. Compensa mais, a quem tem dinheiro, deixá-lo aplicado do que investir. No caso do mercado automóvel, um artigo que tem valor alto, só se consegue volume de vendas se houver crédito e o crédito, no Brasil, é altíssimo - o segundo maior do planeta. Este é um país onde sai mais barato pedir dinheiro emprestado à máfia italiana do que a um banco. São 15%, 18%, uma loucura. Só com um governo que faça a lição de casa, diminua o défice fiscal, razão para o crédito alto, e tenha visão de longo prazo, o problema se resolve.
É justo dizer que a maioria dos empresários no Brasil prefere a direita ou, pelo menos, políticas mais liberais na economia?
Quem empreende no Brasil, nem deveria pensar em política. O empresário do que precisa é de estabilidade jurídica: repare, o Michel Temer [presidente de 2016 a 2018] fez uma reforma laboral, o volume de processos laborais diminuiu absurdamente. O Lula da Silva voltou [em 2022], mudou a lei e os processos já estão a voltar. E precisa também de impostos estabilizados: as empresas têm de ter assessoria fiscal para conseguir pagar corretamente os impostos municipais, estaduais, federais. Talvez em 2027, com o início da reforma fiscal já aprovada, a situação melhore e se simplifique.
Empresários portugueses que querem investir no Brasil falam, precisamente, nesses problemas de crédito e fiscalidade como principais obstáculos.
Eles entendem que, para investir no Brasil, é preciso ser um herói. Um empresário no Brasil tem de ser um herói. E, para quem vier, o que digo é que primeiro deve conhecer muito bem o mercado e a legislação brasileiros. Quem começa como microempreendedor e vai crescendo devia ser idolatrado, mas no Brasil quanto mais se cresce mais dificuldades lhe são impostas e, por isso, o empresário prefere não crescer para não ter mais problemas com a lei laboral e com os tributos de estado para estado. É meio louco.
Está otimista para os próximos anos?
Eu estou sempre otimista, faço questão de estar. Até porque, como disse, acho que a reforma fiscal vem para ajudar.
E para esse otimismo se concretizar prefere a esquerda ou a direita no poder?
Se tiver a esquerda o processo é mais lento, se tiver a direita é mais rápido, mas o Brasil não sobrevive muito mais tempo com 15% de juro ao mês. É uma questão de se ter um bom líder executivo como presidente, um bom Congresso Nacional e um bom Supremo Tribunal Federal que o Brasil decola, até porque temos uma das maiores agriculturas do mundo, temos terras raras, temos condições excepcionais. Mas o mais interessante é que todos esses poderes sabem exatamente o que deve ser feito. Entretanto, há outro problema profundo.
Qual?
A Educação, que é fraca, e sem ela nenhum país progride. Não existe economia boa sem Educação de qualidade, Ensino Técnico, Ensino Básico, precisamos de profissionais de qualidade na agricultura, em todas as áreas, e não temos. A China, de onde é a Denza, explodiu graças à Educação, engenheiros chineses são chamados para resolver problemas aqui no Brasil.
E o carro elétrico, ou o híbrido, é mesmo o futuro?
Sim. Mas em conversa recente com o vice-presidente da Denza no Brasil dizia-lhe que nos últimos cinco anos houve mais mudanças do que nos anteriores 25 que levo no ramo. Muda tudo tão rápido. Entretanto, o carro elétrico depende da autonomia - sem essa autonomia, o híbrido é melhor opção. Mas os países têm de começar a produzir energia, uns, a do gás, outros, a do sol, outros, a do vento. O Brasil, nesse caso, é privilegiadíssimo porque tem hidrelétricas, tem gás, tem vento, tem sol, tem álcool… Basta haver vontade.