O Clube de Produtores Continente está a comemorar os seus 25 anos de existência. Uma data que não pode ser deixada em branco, até para recordar os muitos homens e mulheres que por ali passaram e contribuíram para o seu sucesso, louva Ondina Afonso. "Este é um modelo único, muitas vezes aplaudido a nível europeu, porque não existe uma parceria tão próxima entre retalho e produção", diz ao Dinheiro Vivo a presidente do organismo. Neste quarto de século, a estrutura ajudou vários produtores a ter sucesso.
"Foram crescendo, foram-se tornando organizações de produtores e hoje em dia são grandes exportadores, reconhecidos pela sua excelência", frisa a dirigente. "Frequentam as grandes feiras internacionais e, para nós, é um orgulho saber que, no fundo, fizemos um trabalho de crescimento", declara a responsável, que afirma ainda que as exigências do retalho português são exatamente iguais às de um Estado europeu. "E, por isso, eles são e foram capazes de responder aos desafios de outros por essa Europa fora."
Atualmente o Clube trabalha com 340 produtores, muitos já de segunda e terceira geração e que mantiveram a ligação. As frutas e legumes continuam a ser o core, mas a organização também compra carne, charcutaria e queijos tradicionais, assim como padaria e pastelaria tradicional, além do mel, ovos e da farinha do Alentejo que é usada também nas padarias do Continente. No caso da farinha, diz Ondina Afonso, o Clube fez, há cerca de cinco anos, uma parceria com os produtores de cereais do Alentejo, através da qual se comprometeu "a crescer e comprar tudo o que podíamos.
Os produtores começaram a responder e a aumentar também a produção de trigo em Portugal". Atualmente, o Clube compra antecipadamente, e por ano, 4500 toneladas de cereais. "Há aqui uma garantia de que o que o agricultor está a semear é exatamente aquilo que o Continente vai usar, durante o ano, nas suas padarias", frisou. Entre os cereais e todos os outros bens, de janeiro até final de setembro, o Clube já comprou aos seus parceiros 421 milhões de euros, o que equivale a 182 mil toneladas de produtos.
A Comissão Europeia, através da estratégia do Prado ao Prato, e no que diz respeito aos sistemas alimentares sustentáveis, está a exigir várias alterações ao setor agroalimentar. Será obrigatório cumprir parâmetros de sustentabilidade que, de acordo com Ondina Afonso, "são desafiantes para a produção porque vai requerer algumas mudanças de práticas, alteração de processos que requer exatamente investimento e novas competências".
E para que esta transição aconteça, a líder do organismo afirma que são necessários apoios e também a criação de competências para a digitalização da informação. Do lado do Clube, o caminho já se iniciou, em 2021, com a Declaração para a Sustentabilidade. "Existem metas para 2030 e estamos a falar de seis, sete colheitas. É muito rápido, é já amanhã, e se os produtores não se adaptarem vai ser muito difícil".
Com a Declaração, "aqui há um compromisso entre produção e retalho para evoluirmos e fazermos este caminho em conjunto, porque sozinhos, muitos deles com menor dimensão, vai ser muito difícil". Paralelamente, Ondina Afonso pede ao Ministério da Agricultura medidas para expandir a capacidade produtiva nacional, ao nível das matérias-primas básicas. "Vimos recentemente, com a guerra na Ucrânia, que, de repente, ficámos sem o girassol", recorda. "As leguminosas têm um potencial enorme exatamente agora porque há esta tendência do plant based. Há muita gente à procura da proteína vegetal para substituir a proteína animal e nós estamos dependentes de países terceiros", lamenta.
E lembra o risco potencial que podem ser as cadeias muito longas de abastecimento. "Portugal podia fazer, julgo, esse caminho de criarmos mais alguma capacidade e isso tem que ser uma medida também de apoio, também do próprio Ministério, não é?", questiona, lembrando ainda que a maioria dos agricultores não tem ainda competências nem as ferramentas necessárias para a transformação digital. "Por isso, a estratégia de digitalização do setor é algo que é necessário ser implementada o quanto antes", afirma.
Ainda no âmbito da Declaração de Sustentabilidade, e sendo um tema que afeta a sociedade, o Clube de Produtores criou a Feira do Desperdício. "Um marketplace onde convidamos os nossos produtores a colocar todo o seu desperdício e a indústria, que também são fornecedores do Continente, a fazer parte desta plataforma, no sentido de identificarmos oportunidades de uns comprarem os desperdícios dos outros e criarmos aqui produtos de valor acrescentado", detalha Ondina Afonso.
Com esta iniciativa, 50 toneladas de maçã de Alcobaça foram convertidas em Vinagre de Maçã Continente Seleção e, anualmente, têm sido valorizadas duas toneladas, em média, de charcutaria na produção de folar da Páscoa, charcutaria essa que provem do fatiamento de presunto e enchidos, mas que, dado o tamanho, não são colocados nas embalagens de charcutaria fatiados. No mesmo âmbito, foram já produzidas cinco toneladas de composto orgânico, com base na valorização de produtos agrícolas que ficam nas explorações.