Utopia hoje, carne e osso amanhã

“Tropeçadoras”. Escrevo isto e o corretor de texto avisa que é uma palavra que não existe.
Publicado a

“Pedras tropeçadoras”, sim. Insisto. “Stolpersteine” em alemão: stolpern = tropeçar, Stein = pedra.

“Pedras tropeçadoras” são pedras de cimento, cobertas por placas de latão, que fazem parte de um projeto criado por um artista plástico berlinense chamado Gunter Demnig. As pedras são enterradas às portas das casas onde viviam judeus que foram exterminados na Segunda-Guerra. Nas placas escrevem-se os nomes das vítimas, avisando que elas moravam ali.

A intenção de Gunter é simples: fazer com que as pessoas tropecem (emocionalmente) num passado que teima ser esquecido.

Tropecei em “tropeçadoras” numa recente visita a Praga. Se tivesse ido a Munique isso não aconteceria. Lá as pedras foram proibidas. E estão guardadas num depósito. Esperam pela bondade de uma sociedade menos dividida e que compreenda a importância de não repetirmos erros históricos.

Não é o que parece estar a acontecer. O que é uma pena. Nunca o futuro esteve tão perto do presente. Parece que vivemos na antessala da família Jetson (sendo que ainda somos membros da família Flinstone).

Esta semana o planeta entrou em polvorosa com a divulgação do projeto Amazon Go. Eu mesmo que não sou de empolgar-me com novidades tecnológicas (participei do lançamento da telefonia móvel em Portugal mas só aceitei a ter um aparelho uns cinco anos depois, por exemplo) vi e revi o vídeo de apresentação das lojas Amazon Go várias vezes.

Para quem chegou agora, a coisa é o seguinte: imagine um supermercado onde não há caixas, nem nenhum sistema de cobrança presencial. As pessoas (previamente registadas e depois de fazer um check-in digital) podem apanhar o que quiserem nas prateleiras e depois sair sem dar cavaco a ninguém. Como já li algures, a coisa mais parecida com isto já existe, chama-se furto. E dá cadeia.

Na verdade, as lojas Amazon Go têm uma série de câmaras a acompanhar os movimentos dos clientes. Robôs leem esses movimentos e interpretam o que eles significam. Nada é cobrado indevidamente.

Escrito nem parece grande coisa. E, claro, não se trata de uma boa notícia para milhões de pessoas que trabalham em serviços de venda. Para elas isso será um desastre. É como se um carro da Uber tivesse entrado desgovernado supermercado dentro.

Resolvi abordar este tema devido ao aniversário do Dinheiro Vivo que estamos a comemorar neste momento. Aniversários são maneiras de festejarmos o passado mas a acreditar que haverá um futuro. Espero que possamos caminhar até ele sem tropeçar em nós mesmos.

Ou como diria o meu Tio Olavo, parafraseando um escritor muito antigo: “É a ambição do novo que molda o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã”.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt