Vemo-nos gregos

Publicado a

O último mês foi muito mau para a Grécia. Tão mau que hoje o

mercado dá como quase certo que os gregos não vão pagar aos

credores tudo o que devem. Foram muitas as más notícias e quatro

delas são importantes e relevantes para Portugal.

Primeiro, apesar de enormes subidas nas taxas de quase todos os

impostos (IVA, IRS, imobiliário, e muitos mais), a receita fiscal

ficou abaixo do esperado. Esta descida explica-se em parte porque, a

partir de determinado nível, taxas de imposto mais altas não trazem

mais receita. A subida das taxas contrai a actividade económica,

expande a economia paralela, e eventualmente os cobradores de

impostos não conseguem extrair receita de uma população

antagonizada e ressentida.

Segundo, o Governo grego até agora falhou completamente no corte

da despesa e está muito atrasado nas metas de redução do sector

público. Para além disso, embora o Governo tenha aprovado algumas

reformas estruturais no mercado de trabalho que estavam no acordo, as

novas leis têm tantas restrições para não prejudicar este ou

aquele grupo, que acabaram por não fazer diferença.

Terceiro, no acordo com a troika previa-se a criação de um órgão

independente que acompanhasse a execução orçamental. O ministro

das Finanças nomeou o líder deste órgão e dotou-o de um orçamento

baixo e um staff pouco qualificado. Quando o primeiro relatório do

órgão saiu, o governo teve uma surpresa, embora ele apenas

apontasse o óbvio: a Grécia estava em risco de falhar o alvo do

défice. O Governo reagiu com críticas muito duras que levaram à

demissão do presidente do novo órgão. Confirmou-se a suspeição

de que independência e rigor na análise das contas ainda continuam

longe das costas helénicas.

Quarto, a troika rompeu as negociações com o governo grego e

ameaçou não enviar novo cheque daqui a uns meses. Tal como

Portugal, a Grécia depende deste financiamento não só para pagar

aos credores internacionais mas também para pagar salários

públicos, pensões ou apoios sociais. As parcelas do empréstimo da

troika garantem que, se o país não cumprir o acordo, não tem

dinheiro em caixa para mais de dois ou três meses de despesas.

Quais as lições que Portugal pode retirar destas más

experiências gregas? Há um limite para a subida de impostos. Sem

cortar a despesa de forma rápida e convincente, não há programa de

ajustamento que tenha sucesso. Se a reforma da lei das rendas ou as

mudanças nas indemnizações por despedimento tentarem agradar a

todos, acabam por não ter quase nenhum efeito. Esta não é a altura

para golpes palacianos ou para nomear amigos para cargos que deviam

ser independentes. Por fim, o acordo com a troika é para cumprir e o

FMI, o BCE e a Comissão Europeia não estão para brincadeiras.

O último mês na Grécia devia servir de sinal amarelo ao Governo

de Passos - que deve prestar atenção a estas lições. Portugal

está longe de ser a Grécia, mas convém que se mantenha tão longe

quanto possível.

Professor de Economia na Universidade de Columbia,

em Nova Iorque

rr.dinheirovivo@gmail.com

Escreve ao sábado

Diário de Notícias
www.dn.pt