As exportações portuguesas de mercadorias, que em 2019 valiam quase 70% das vendas totais do país ao estrangeiro (o resto eram serviços, sobretudo turismo), registaram nos nove meses que vão de janeiro a setembro deste ano o segundo pior desempenho de que há registo quando se compara com igual período do ano precedente.
Os cálculos são do Dinheiro Vivo (ver em baixo) e têm por base os novos dados do comércio internacional, ontem divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
Não fossem as vendas de produtos alimentares ao exterior, a queda das exportações teria sido ainda mais pronunciada, sublinhou o INE.
A exportação de produtos alimentares e bebidas foi "a única grande categoria económica que registou, no período de janeiro a setembro de 2020, acréscimos face ao período homólogo, ao contrário da redução generalizada das exportações", observou o instituto.
No período que vai de janeiro a setembro deste ano, os exportadores nacionais de mercadorias faturaram um total de 38,9 mil milhões de euros, menos 5,6 mil milhões de euros face há um ano atrás. Esta redução representa uma quebra homóloga de 12,7%, a pior marca nesta altura do ano desde 2009.
No final de setembro desse ano que foi amplamente marcado pela grande recessão global gerada pela crise bancária e financeira iniciada em 2007 e 2008 (queda do Lehman Brothers), as exportações de Portugal afundaram 22,8%, o valor mais negativo destes registos oficiais.
Agora, olhando para janeiro-setembro deste ano de pandemia, as exportações estão bastante mal. Registam a segunda pior prestação das séries do INE, que remontam a 1994. Cerca de 26 anos, portanto.
Motor parado
Há já vários anos que as exportações foram eleitas como o motor "saudável" e desejável da economia nacional, de forma a compensar a dependência do exterior devido ao elevado consumo interno de bens importados.
Segundo o INE, "em 2020, entre janeiro e setembro, verificou-se um decréscimo significativo das exportações e importações face ao período homólogo, refletindo o contexto da pandemia covid-19". Os meses de "maior impacto" foram abril e maio, quando a esmagadora maioria dos países entrou em confinamento. "Depois verificou-se uma lenta recuperação".
Esses meses duros não são, nem vão ser fáceis de apagar. O INE informa que no primeiro trimestre, as vendas para fora começaram a cair cerca de 3%. No segundo trimestre, foi o colapso. As exportações afundaram quase 31% face ao mesmo período de 2019. Depois, com o desconfinamento em vários países, as exportações quase que pararam a sua sangria. Quase porque, mesmo assim, caíram 3,3%.
A situação não está de feição até final do ano. A segunda vaga da pandemia materializou-se e os números parecem ser muito piores do que na primeira. Resultados: os países entraram em confinamento outra vez (em Portugal está agora mais concentrado em 121 municípios problemáticos) e isso terá certamente reflexos no comércio internacional até ao final do ano.
E quem está mal pode ficar pior, quem se aguentou até aqui pode ser que chegue a 2021 com menos ferimentos.
De acordo com um levantamento feito pelo DV, nos primeiros nove meses deste ano, os exportadores que mais sofreram o embate da pandemia foram os de "serviços de arquitetura e de engenharia; serviços de ensaios e de análise técnicas". Faturaram menos 65% em vendas ao exterior.
Combustíveis e veículos automóveis mal
Mas quando se têm em conta o peso das exportações de cada produto, percebe-se que o ónus mais pesado recai sobre as vendas de produtos refinados (gasóleo e gasolina, basicamente), com uma quebra monumental de 31%.
As expedições de veículos automóveis, outra das grandes fileiras da exportação portuguesa, afundaram quase 23%.
As vendas de vestuário recuaram mais de 18% até setembro, a exportação de mobiliário também sofreu um revés desse calibre. O calçado e produtos de couro idem.
Do outro lado da lista, houve quem ganhasse. A exportação de produtos alimentares avançou 2%, os produtos agrícolas e produção animal subiu 11%, os produtos farmacêuticos ganharam 13% nos mercados externos. As vendas de eletricidade e gás aumentaram mais de 15%.