Vinte anos de terror

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Na fotografia tirada dentro do avião militar norte-americano Air Force C-17 Globemaster III, em Cabul, vê-se uma criança a beber leite de um biberão, nos braços de uma mulher que parece gesticular. Há rapazes enrodilhados no colo dos pais e uma menina com os braços à volta da mãe. Os olhares perdidos das crianças parecem vaguear no meio do caos, temperando o terror nas caras dos adultos sentados ou acocorados no chão. Estes são os afortunados, aqueles que conseguiram escapar do horror na capital do Afeganistão, aqueles que não morreram na tentativa desesperada de abandonar a sua terra rasgada pela guerra, violência e extremismo religioso.

Esta fotografia, que circulou um dia depois da tomada de Cabul pelos Talibã, mostra em simultâneo a tragédia de um país incapaz de se libertar do terror e o falhanço dos Estados Unidos em abandonar uma guerra impossível de vencer sem largar o povo afegão ao inferno que agora desce sobre eles.

Estamos a menos de um mês de assinalar vinte anos desde o 11 de Setembro, o dia fatídico dos ataques terroristas em Nova Iorque que mudaram o mundo. E o cenário atordoante dos Talibã a recuperarem o poder assim que os militares norte-americanos começaram o processo de saída do Afeganistão mostra como a paz é frágil, como a estratégia foi um desastre, e como não há vitória possível na guerra ao terror.

Esta é, possivelmente, a constatação mais dura e necessária a fazer. A guerra ao terror não se ganha como os Aliados ganharam a Segunda Guerra Mundial. Não há um desembarque vitorioso nem uma capitulação, não há um dia final nem um armistício para assinar. A morte de Osama Bin Laden, em 2011, não terminou nada a não ser essa missão de busca e retribuição. O extremismo terrorista é como um vírus que reaparece continuamente e para o qual é preciso vigilância constante.

Todas as vidas perdidas nesta guerra com vinte anos desembocaram num abismo, onde o vazio (ou a entrega) de poder e o xadrez político se encontraram para acelerar o precipício. A guerra ao terror não se termina, gere-se. E assim, como umas parangonas de fácil esquecimento, deixa-se em escombros um país onde as meninas e mulheres voltarão a ser brutalizadas em nome da religião. Dez anos depois da morte de Osama Bin Laden, com a primavera árabe há muito invernada, o ocidente aprendeu pouco com o rasto que deixou.

É certo que a decisão de Joe Biden não aconteceu no vazio. Neste tema em particular, os três últimos presidentes norte-americanos estiveram todos do mesmo lado: queriam sair do Afeganistão, abandonar uma guerra impossível de vencer num dos territórios tribais mais difíceis do mundo.

Não teria havido uma forma perfeita de o fazer, mas esta demonstrou ser imediatamente apocalíptica. Para lá de todas as considerações geopolíticas - e análises mais bem feitas pelos especialistas que conhecem o terreno - é impossível ficarmos alheios ao pânico dos civis que ficam para trás, entregues aos extremistas, antecipando já um novo reino de pavor.

Há vinte anos, sem a toxicidade das redes sociais, assistimos estupefactos a uma barbárie que não julgávamos possível neste século. Agora, nem saídos ainda da pandemia e auscultando já o tremor cardíaco de uma economia global em crise, vemos em directo o ressurgimento do extremismo terrorista. A História repete-se para os que não aprendem com ela.