O presidente executivo da Vodafone Portugal, Mário Vaz, garantiu esta segunda-feira que a empresa avançou para a compra da Nowo pelo valor económico da empresa de telecomunicações, ainda controlada pela espanhola MásMóvil, e não para somar licenças 5G ou para reduzir a concorrência.
"Compramos porque tem valor económico", afirmou Mário Vaz esta manhã, num encontro com jornalistas a propósito dos 30 anos de atividade da Vodafone Portugal.
Na liderança da subsidiária nacional do grupo britânico desde 2012, Mário Vaz esclareceu, reiteradamente, que a aquisição da Nowo não surge para ter mais espetro 5G, ou para reduzir a concorrência, mas para somar os cerca de 250 mil clientes que aquele operador tem no negócio móvel e mais de 140 mil no negócio fixo. A compra da Nowo pela Vodafone já teria sido equacionada anteriormente, mas só agora aconteceu porque, segundo o gestor, há uma maior coincidência tecnológica - a Nowo já usa rede de fibra ótica, o que facilitará a migração dos clientes.
O preço da Nowo não foi revelado. Segundo o El País, a Vodafone vai adquirir a Nowo por 150 milhões de euros. Questionado se o negócio ficará fechado por aquele ou um valor superior, o CEO da Vodafone Portugal respondeu que o valor "será entre zero e 150 milhões de euros". É a primeira aquisição que a subsidiária do grupo britânico faz em três décadas de atividade em Portugal.
A Vodafone deverá notificar a Autoridade da Concorrência (AdC) sobre o negócio no "início de novembro", ainda na "primeira quinzena", segundo o gestor. Quando a operação for reportada à AdC também a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) será chamada a apreciar o negócio.
Mário Vaz não espera "complexidade de decisão" pelos reguladores. E embora admita que possam surgir dúvidas, uma vez que a Nowo adquiriu licenças 5G no último leilão de frequências, o CEO da Vodafone Portugal não antevê entraves regulatórios nem "remédios substanciais" (ou seja, haver luz verde para o negócio mas com contrapartidas setoriais).
"Não há razão objetiva [para isso] face à dimensão da Vodafone e ao impacto no mercado", acrescentou, realçando que "a motivação não foi a compra de espetro [5G]".
O regulamento do leilão do 5G determinou que os operadores que compraram licenças só podem vendê-las ao fim de dois anos, de acordo com uma notícia do jornal Eco de 21 de outubro. Questionado pelos jornalistas, Mário Vaz, esclareceu que a "intenção" da Vodafone é a "aquisição da totalidade dos ativos" da Nowo (ou seja, as licenças 5G estão no bolo), mas defendeu que a regra criada para o leilão do 5G "não é aplicável ao caso em concreto", visto que a Nowo não está a "vender as frequências". A Vodafone é que está a comprar a Cabonitel S.A, veículo detentor da Nowo, à Llorca JVCO Limited, que é uma sociedade acionista do grupo espanhol Másmóvil. Ou seja, o líder da Vodafone, defendeu que o negócio configura nada mais do que "uma alteração acionista" na estrutura proprietária da Nowo.
Além do travão à alienação de licenças após o leilão, o regulamento também previa limites na aquisição de frequências essenciais ao desenvolvimento do 5G. Os operadores não podiam adquirir mais de 20 MHz do espetro na faixa dos 700 MHz, nem mais do que 100 MHz na banda dos 3,6 GHz. Contudo, ao adquirir a Nowo, a Vodafone passará a ter 130 MHz na frequência dos 3,6 GHz (mais 30 MHz do que o permitido).
Mário Vaz defendeu-se, afirmando que o "que estava [definido] no leilão não deve ser usado como referencial", considerando que as regras diziam respeito só à aquisição da "licença per si". "Havia um conjunto de limitações associadas ao leilão. A questão dos volumes de espetro... Tudo isso são condições do leilão, não são, necessariamente, condições de utilização futura", argumentou. A Vodafone investiu 133,2 milhões de euros e a Nowo (via MásMóvil) 70,2 milhões no leilão do 5G.
Se o racional do negócio não passou pelas licenças 5G que a Nowo recebeu, será este negócio uma forma de acabar com um concorrente, depois de a Anacom ter criado condições para a existência de mais do que três operadores em Portugal? Mário Vaz rejeitou haver o propósito de reduzir a concorrência, considerando que este movimento é uma consequência das condições do mercado.
O gestor explicou que a Nowo, embora assuma uma quota de mercado "relativamente reduzida", é um operador com "relevância", pois permite "um crescimento" à Vodafone ao adicionar "mais de 150 mil clientes fixos" e mais de 200 mil clientes móveis".
O número de novos clientes a absorver é limitado para um operador da dimensão da Vodafone, ainda assim. Perante a leitura, o CEO da Vodafone Portugal acrescentou que "há sinergias possíveis resultantes da aquisição da empresa", sem haver "uma alteração do ponto de vista competitivo". Isto, porque "o tempo também vale dinheiro", segundo Mário Vaz. É que, desta forma, a empresa vê o número de clientes crescer sem "os custos significativos" da angariação dos mesmos.
Depreende-se das palavras do gestor que o negócio permitirá à Vodafone realizar investimentos mais eficientes, tendo em conta que ainda há outro novo concorrente a chegar ao mercado português (a Digi).
Por outro lado, Mário Vaz notou que o negócio ocorre quando, do lado do vendedor (grupo MásMóvil) poderá haver maior atenção com a evolução do mercado espanhol. Em Espanha têm ocorrido também operações de concentração - a última a envolver a MásMóvil e a Orange. E em Portugal a MásMóvil não estaria a contar com a Digi.
"O mercado em Espanha mais não é que o reflexo daquilo que temos referido para este setor", afirmou o CEO da Vodafone Portugal, alertando que "a dimensão dos operadores é nuclear para o setor". Nesse sentido, lembrou o cenário económico e voltou a defender que o mercado português não tem capacidade para tantos operadores. Por isso, a "consolidação é inevitável".
"[O mercado português] pela sua dimensão, três operadores, é um número já difícil per si para entregarmos o retorno aos investidores", disse.
"A longo prazo não vejo mais do que três operadores, posso estar enganado, mas não vejo", afirmou. "[O mercado português] é demasiado pequeno para os operadores que temos, olhem para Espanha", insistiu.
Quanto ao futuro da Nowo, se será incorporada dentro da Vodafone Portugal ou se se manterá a marca Nowo, Mário Vaz disse que é, ainda, "muito cedo para falar do que vai acontecer". O futuro da Nowo só ficará definido depois da conclusão do negócio, que se prevê finalizado durante o primeiro semestre de 2023 após a eventual luz verde da AdC e da Anacom.
Apesar de não desvendar os planos para a Nowo, o gestor explicou que a concretização da transição do universo MásMóvil para o universo Vodafone pressupõe a migração dos clientes da Nowo para a rede Vodafone. A mudança sentir-se-á, essencialmente, ou com a substituição de equipamentos nas casas dos clientes ou com a substituição dos cartões de telemóvel dos clientes móveis da Nowo.
A Nowo não tem rede própria, daí ter sido considerado "novo entrante" (leia-se um novo operador) no leilão do 5G. Até hoje tem recorrido à rede da Altice Portugal, operador com o qual tem um acordo de operador móvel virtual (MVNO) desde o início da década de 2010. A dona da Meo fatura dez milhões de euros por ano com o acordo.
Para Mário Vaz, concretizando-se a compra, não fará sentido a Nowo manter o acordo com a dona da Meo. "Não vamos usar a rede da Altice", salientou, depreendendo-se que romper o vínculo da Nowo com a Altice será uma das primeiras decisões.
O processo será idêntico ao que aconteceu com a Zon, que também tinha um acordo MVNO com a Vodafone até se fundir com a Optimus em 2013 (fusão resultou em 2014 na NOS), segundo o gestor.
Com a conclusão desta operação, a Vodafone também deverá integrar 130 novos empregados vindos da Nowo. E a Vodafone pretende recorrer à nova mão de obra, com Mário Vaz a lembrar que os talentos qualificados são hoje "um bem escasso" e que a empresa não tem técnicos especializados em tecnologia de cabo, algo que a Nowo tem.
Foi a 30 de setembro que a Vodafone anunciou ter um acordo para adquirir a Nowo. A Vodafone está a ser assessorada pela sociedade de advogados Vieira d'Almeida.