1. Depois do enorme aumento de impostos de.Vítor Gaspar, assistimos à enorme dança do ventre de Paulo Portas. .A estreia do vice-primeiro-ministro na conferência pós-exame da.troika é o retrato de um estilo. Valorizar ao máximo os ganhos - a.confirmação de que a TSU dos pensionistas não avança -, esconder.as derrotas (a meta do défice para 2014 mantém-se nos 4% do PIB) e.depois encher uma hora de conversa como uma mão cheia de quase nada..Nunca uma conferência pós-exame libertara tão pouca informação..IRC para 2014? Nada. IRS? Nada. IVA? Nada. Dívida pública em 2014?.Nada. Medidas para preencher o vazio deixado pela queda da TSU dos.pensionistas, que vale 436 milhões de euros, népia. Generalidades,.portanto. Portas não dá números, dá títulos de jornal, frases.para a rádio e para a televisão. Chamou pequenas e médias despesas.aos apertos que distribuirá pelos ministérios - e não só - para.compensar a queda da TSU. Como fará este milagre se já estava.prevista uma ronda de cortes difícil de executar? A Educação já.tinha a obrigação de reduzir 325 milhões de despesa, a Saúde.outros 127 milhões, a Justiça 59, nenhuma área iria escapar ao.novo garrote. Será possível apertar ainda mais? Estão os ministros.dispostos a isso? E finalmente: como garantir que os cortes se.concretizam? Isto é: uma coisa é cortar grandes blocos de despesa -.os maiores agregados orçamentais - outra é ir aos pedacinhos,.cabelo a cabelo, o que muitas vezes choca com a inércia da máquina.pública, quando não mesmo com o boicote tácito dos ministros. O.risco de fracasso é enorme, o que coloca as metas do défice para.2014 em risco logo à nascença. .2. E o défice deste ano? Pelos vistos há.problemas. O processo de regularização extraordinária de dívidas.fiscais, perdoando juros e multas, é o sinal de algum desespero..Depois do processo que permitiu o repatriamento de capitais (que nem.100 milhões de euros valeu), o governo espera descobrir entre 500 e.600 milhões até ao final do ano com nova operação de emergência..Qualquer contribuinte cumpridor deve sentir-se enganado: pagou os.impostos a horas ou está a pagá-los, quem não pagou porque enganou.o Estado devia ser castigado, nalguns casos até preso, mas em vez.disso será amnistiado porque o governo precisa de dinheiro e, por.isso, está disposto a perdoar um dos crimes que mais ameaça e.corrói o Estado social. A fuga ao fisco é uma epidemia, representa.mais de um terço do total das receitas tributárias. Há mais de dez.mil milhões de dívidas por cobrar. Mas além deste problema -.económico, legal, cívico, moral -, esta decisão expõe o risco.orçamental deste ano. Se for verdade que o governo estima recuperar.500 a 600 milhões este ano e se for esse o buraco a tapar, estamos a.falar de 0,3% pontos percentuais do PIB, talvez um pouco mais, o que.significa que o défice para este ano, sem receita extraordinária,.deve andar nos 5,8%, 5,9%, o que, entre outros efeitos, aumenta a.distância a percorrer em 2014 - mais apertos, portanto. Claro, há.sempre a hipótese de, no final deste ano, o governo estender o prazo.de regularização por 2014 de modo a beneficiar também essas.contas. Em 2002, quando a ministra Ferreira Leite usou o mesmo.esquema, arrecadou 1,1 mil milhões. Enfim, estamos sempre a viver de.expedientes. Vivemos no arame.