A última entrevista conhecida de Belmiro de Azevedo foi na qualidade de vitivinicultor. Quando se despediu da vida ativa na Sonae, em março de 2015, Belmiro de Azevedo deixou claro que não iria parar, queria dedicar-se à Educação e ao Setor Primário.
A viticultura era uma das suas paixões, a que dava largas na quinta da família, no Marco de Canavezes, e onde produzia o Vale de Ambrães, vinho verde vendido nas lojas da cadeia Modelo e Continente. Falou dessa sua experiência ao 'Boas Vinhas', o jornal semestral da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, dando a conhecer o seu projeto de expansão de três para dez hectares de vinha, mas também da importância de se fazer acompanhar de "profissionais com grande experiência" nesta sua atividade: Anselmo Mendes e Pedro Castro.
Num exclusivo do Dinheiro Vivo, leia aqui o trabalho publicado pelo 'Boas Vinhas' em agosto de 2016.
Investir no Marco de Canaveses é um regresso às origens?
Belmiro de Azevedo - Eu vivi – e trabalhei, em horário pós-laboral, numa loja - até aos 12 anos no Marco. Mas fui um privilegiado, porque tive um professor primário, Carlos da Silva Andrade, muito rigoroso, que convenceu os meus pais a encontrarem uma solução para eu não ficar no Marco onde só se poderia ser lavrador ou carpinteiro. Acabei por encontrar apoio de um professor do Alexandre Herculano que me acolheu em sua casa durante cerca de dois anos. Mais tarde, um outro familiar – conhecido por fortes ligações no Marco ao movimento revolucionário - cedeu-me parte do seu alojamento nas caves de um prédio em construção, hoje Hospital Santos Silva. Acho que só regressei ao Marco quando me casei com a minha esposa em dezembro de 1963. A casa de família estava ocupada e só recentemente foi recuperada, para ser brevemente escola de formação.
Porque decidiu investir na viticultura?
- Após terminar as funções executivas no grupo Sonae, decidi dedicar o meu tempo, entre outras atividades, ao sector primário. A Casa Agrícola de Ambrães já produzia os vinhos de Vales de Ambrães, pelo que decidi optar por aumentar a produção própria, controlando assim a qualidade da matéria-prima a empregar nos vinhos de Ambrães.
Os seus pais eram viticultores ou a viticultura é um projeto seu? Sei que tinha inicialmente produção só "para casa", porquê a decisão de democratizar o consumo?
- O meu pai era carpinteiro ativo e a minha mãe era costureira e terá sido a única que fez o 6º ano. Os meus pais sempre estiveram ligados à agricultura, mas numa perspetiva de consumo próprio. A decisão de democratizar o consumo está ligada à vontade de criar produtos distintos e vencedores, que possam contribuir para o desenvolvimento da Região, nomeadamente do Marco de Canaveses.
Acompanha as vinhas desde sempre?
- Só mais recentemente acompanho, com maior afinco, o desenvolvimento das vinhas e da produção dos vinhos. Mas sem ambições de ser técnico. Investidor generoso, sim; exigente em resultados, sim, para forçar a qualidade crescente. O vinho é deveras técnico e houve sempre uma grande preocupação em deixar para técnicos credenciados os lugares técnicos. Tive que esperar por 50 anos de total dedicação à Sonae para regressar ao Marco e poder acompanhar as atividades na Casa Agrícola de Ambrães com maior afinco e presença.
As castas a plantar são escolhidas por si?
- A escolha das castas foi apoiada por técnicos especializados, capazes de adequar as melhores castas da Região ao potencial que as nossas condições apresentam. Sempre fui um “risk taker”, mas gosto de conhecer bem quais os riscos e desafios que me esperam, por isso apoio as minhas decisões e investimentos nesta área em técnicos especializados e profundos conhecedores do mercado.
Tem preferência por alguma casta em especial?
- Por uma questão de distinção, tipicidade e regionalismo aprecio muito a casta Avesso, a qual praticamente só se cultiva na zona do Marco de Canaveses e Baião. Origina vinhos com caráter e presença, distintos dos vinhos da região dos Vinhos Verdes, os quais também aprecio muito.
Participa na vindima?
- A vindima é sempre um momento alto na produção de vinhos, o culminar de um ano de muito trabalho e dedicação, muitas vezes lutando contra as condições adversas que o clima, cada vez mais instável, nos oferta. A minha participação é mais de observador atento e zelador pelo rigoroso cumprimento das normas implícitas e nas práticas necessárias à obtenção de um produto de elevada qualidade. Não me atrevo sequer a discutir com dois excelentes profissionais – um sénior com provas dadas há muito tempo, o enólogo Anselmo Mendes, e o responsável pelo departamento agrícola, Pedro Castro, um jovem, mas conhecedor e promissor.
A família acompanha a vinha?
- A família demonstra sempre muito interesse nas atividades da Casa Agrícola de Ambrães, no entanto, devido aos seus compromissos profissionais, não podem acompanhar com grande afinco. A área financeira e o crescimento só passam por mim, por ter que financiar os investimentos.
Dado que não mora perto da vinha, como é que acompanha os fenómenos do clima, os granizos, as geadas, etc?
- Nos dias de hoje, é relativamente fácil prever grande parte das variações do clima. Considero que a atividade agrícola e os seus trabalhos são, em grande parte, condicionados pelas condições climatéricas, pelo que insisto com veemência para que haja um constante acompanhamento das culturas, sempre que as condições se mostrem menos favoráveis, o que permite que se possa intervir com a maior brevidade possível e minimizar os impactos nas culturas. Desde que assinei um projeto ambicioso, foi fundamental procurar profissionais de grande experiência e prestígio, como Anselmo Mendes e Pedro Castro.
Enquanto viticultor quais são os desafios que entende como mais exigentes?
- Atualmente, o grande desafio é colocar no mercado produtos únicos e que sejam do agrado dos consumidores. O mercado é extremamente vasto e competitivo, pelo que é preciso muito empenho para se poder marcar a diferença e conseguir vencer.
Como é que avalia a viticultura enquanto negócio?
- A viticultura é um negócio de elevado risco. O investimento de implantação é alto, os custos de exploração também são altos e é, na verdade, um negócio a “céu aberto”, muito dependente das condições climáticas de cada ano. Requer decisões com profundo conhecimento técnico e de tendências, pois uma vinha faz-se para 30-40 anos. Nos dias de hoje, a competitividade duradoura assenta não só na redução de custos mas na originalidade do produto e seu reconhecimento.
Nos últimos anos alterou muito os vinhos que produz?
- Sim, houve várias alterações. Quer no perfil dos vinhos quer nas referencias a disponibilizar em prateleira.
Em 2012, o seu vinho foi um dos cinco melhores no concurso 'Os Melhores Verdes' promovido pela CVRVV. Qual a mais-valia desse prémio para a promoção dos vinhos que produz?
- Foi muito importante o reconhecimento do nosso vinho pelo concurso promovido pela CVRVV. Permitiu uma divulgação e comunicação da qualidade do vinho quer no mercado nacional quer no mercado internacional. A distinção funcionou como um selo de qualidade comprovada, ajudando o consumidor na hora de optar e foi importante para refazer a transplantação da vinha que tem cerca de três hectares e, num futuro próximo, terá, pelo menos, dez hectares.
Que castas reconhece actualmente como mais apetecíveis para o desenvolvimento de vinhos surpreendentes?
- Avesso, Loureiro e Alvarinho. No entanto, surpreendente não é só o fator casta, mas também o solo, clima e técnicas culturais.
Tem, apesar de tudo, uma produção de pequena/média dimensão. Nunca pensou em crescer ou isso seria perder em qualidade?
- Sim, claro. Faz parte do nosso objetivo alargar a produção de uva à medida que vamos desenvolvendo esta nova fase do projeto. O aumento da área de produção, terá que ser efetuado sem que existam perdas de qualidade, antes pelo contrário. Noutras regiões mais distantes, já temos cerca de 100 hectare para outros frutos. Na nossa estrutura vamos a caminho dos 40 a 50 funcionários, dos quais metade terão que ter formação superior.
Enquanto detentor de uma cadeia de distribuição com a expressão da Sonae MC, como encara as dificuldades dos produtores relativamente ao processo de distribuição nacional e internacional?
- Na generalidade, os produtores sabem produzir com qualidade, empenho e por vezes paixão demasiada. Na sua maioria não tem dimensão e têm muita dificuldade em cooperar. Os produtores encaram a moderna distribuição como salvação e não percebem que o importante é construir marca. Claro que tudo isto tem custos que têm que estar contemplados no preço. Comunicação, marketing e vendas são o “calcanhar de Aquiles” dos produtores. Estes pensam mais em investimentos não produtivos que recursos humanos competentes.
Está a reestruturar a vinha. Porquê? Tem novos mercados? Vai alterar o encepamento inicial? Vai apostar numa casta em especial ou nalgum novo vinho?
- A reestruturação da vinha passa por castas mais adaptadas e de maior potencial vitícola. Contudo as novas técnicas culturais e as castas têm de responder às novas tendências de mercado.
Apostar na viticultura é um bom negócio? Tem seguidores?
- É um bom negócio se for rentável. E se assim for terá com certeza seguidores. Terá que ser uma aposta ganhadora!
Concorda que o Vinho Verde é um produto único no mundo e diferenciador? Que oportunidades lhe parecem evidentes?
- O Vinho Verde não é um produto único. A Região dos Vinhos Verdes produz vinhos únicos e originais. O ponto forte destes vinhos são a sua frescura e mineralidade associada a aromas intensos. Isto torna-os únicos e capazes de responder a uma nova tendência mundial dos vinhos brancos. Diferenciador e digno de oportunidade é produzir vinho que exprima a terra onde ele nasce com originalidade. Há também outras áreas de interesse, como é o caso da Floresta. Nesta há também uma outra intenção que é forçar o Governo a criar condições para que a floresta de pinho dê beleza e crie riqueza, sobretudo nas áreas transformadoras de madeira e das culturas típicas nas regiões a Norte do Tejo e parte do Alentejo.
A sua aposta no futuro será mais no mercado interno ou externo?
- A nossa aposta será principalmente no mercado externo. Procuramos mercados que valorizem os produtos que pretendemos criar e assim abrir portas ao aumento sustentado da produção.