A sustentabilidade na agropecuária é uma agenda estratégica em que é imperativo apostar, seja através da introdução de tecnologias nos processos de criação, da alteração das práticas de gestão e conservação de solos, da promoção da economia circular ou ainda da adoção de soluções ambientalmente eficientes, como o AgroPV (Agrofotovoltaico). Só assim conseguimos garantir o cumprimento do Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC2050), materializar os compromissos com o novo modelo ESG (ambiente, social e governança corporativa) e potenciar a criação de valor.
Enquadrado no exigente modelo de produção europeu, o setor agropecuário português, que vale mais de 3 mil milhões de euros em volume de negócios, tem evoluído positivamente na rota da sustentabilidade. Contudo, atualmente, apesar de realizar uma criação crescentemente focada no bem-estar animal, na qualidade da sua carne e na sustentabilidade dos seus processos, mantém por cumprir um desafio ao nível da visibilidade e do reconhecimento da "Origem da (sua) Carne", condicionando uma valorização justa nos mercados nacionais e internacionais.
O maior foco no consumidor deve refletir-se no desenvolvimento de novos produtos e marcas que incorporem a inovação e a qualidade. A carne, pelos seus nutrientes proteicos e vitamínicos, continua a ser um elemento essencial à mesa do planeta e incontornável em dietas equilibradas. Ao mesmo tempo, quando os empoderados consumidores estão cada vez mais atentos àquilo que consomem, o setor deve assumir, de forma inequívoca, a responsabilidade de assegurar-lhes o acesso a uma alimentação saudável e equilibrada, produzida de forma ética e sustentável.
Num momento em que o setor agrícola tem uma verba de cerca de 550 milhões de euros para investir até 2025 no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural - Continente (PDR 2020), 312 milhões de euros dos quais por via do envelope Next Generation, o setor agroalimentar deve empenhar-se numa transição substantiva rumo a um sistema sustentável "Do Prado ao Prato" ou "Da Pastagem a Mesa", materializada em produtos de maior valor acrescentado. Acresce a estas verbas um montante de cerca de 6700 milhões de euros do Plano Estratégico nacional para a PAC 2023-2027, sendo que no caso do Continente a componente do desenvolvimento rural representa cerca de 2800 milhões de euros. Acreditamos, pois, que existirá a possibilidade de criar uma oportunidade de verdadeira transformação e reinvenção do setor.
Consciente desta mudança de paradigma, o nosso grupo acaba de criar um ecossistema virtuoso e multidisciplinar de inovação capaz de estabelecer um roadmap sustentável para o futuro das empresas do setor, mas também das pessoas e do planeta. É esta a génese do Ethical Meat, um projeto que, congregando universidades e uma diversidade de parceiros tecnológicos, visa testar novos processos de criação assentes (i) na gestão otimizada do bem-estar animal, incluindo parques ao ar livre infraestruturados tecnologicamente (Internet of Things) e painéis solares para o sombreamento dos animais, e (ii) na exploração de novas fronteiras no âmbito da conservação da carne e da sustentabilidade das embalagens.
Ao incorporarmos tecnologia de última geração ao longo da cadeia de valor da carne originada noutros setores de atividade, como a redução do stress no maneio através da captação e do tratamento digital dos respetivos dados, incrementamos o bem-estar animal e, em simultâneo, a eficiência produtiva em mais de 20% face aos métodos tradicionais. Ao mesmo tempo, por via do desenvolvimento e da introdução de novas tecnologias para o embalamento e a preservação das qualidades nutricionais, conseguimos aumentar em mais de 25% os prazos de validade da carne e reduzir ainda o desperdício alimentar e a utilização de materiais com um impacto ambiental negativo.
A inovação tecnológica, focada na maior eficiência dos recursos produtivos e na maximização dos impactos positivos, é a melhor forma de responder às necessidades do presente sem comprometer as do futuro. E esta é, sem dúvida, uma abordagem profundamente valorizada pelo consumidor, o qual, mais do que produtos, procura experiências positivas e memoráveis numa ótica individual (prazer, conveniência, saúde), mas também coletiva (origem, ética, sustentabilidade).
O mundo instável e disruptivo que vivemos, hoje muito marcado pela pressão inflacionista, pela perturbação nas cadeias logísticas ou pela recente escalada nos preços de matérias-primas, em grande medida devido à invasão da Ucrânia pela Rússia, está a forçar a indústria a repensar a sua abordagem ao negócio. Mas, além dos fatores de conjuntura, convém relembrar que a atuação das suas marcas e empresas, com os seus comportamentos, responsabilidades e valores, encontra-se debaixo dos holofotes e sob escrutínio constante há algum tempo e veio para ficar. Para estar à altura dos desafios que tem pela frente, deve estar atenta às necessidades e exigências do consumidor... pelo seu próprio futuro.
Clara Moura Guedes, CEO, Grupo Monte do Pasto