A fileira do calçado e dos artigos de pele fechou 2022 com 2.347 milhões de euros de exportações, o que representa um crescimento homólogo de 22,2% e um novo máximo histórico. Só a indústria do calçado foi responsável por 2.009 milhões de euros, batendo pela primeira vez a barreira dos dois mil milhões.
No total, a indústria vendeu ao exterior, o ano passado, 76 milhões de pares de sapatos, no valor de 2.009 milhões, o que representa um crescimento homólogo de 10,5% em quantidade e de 20,2% em valor. Comparativamente a 2017, o melhor ano de sempre das exportações do calçado, o acréscimo é de 2,73% que corresponde a quase 53,5 milhões de euros a mais. Já o número de pares exportado foi menor do que em 2017, o que evidencia a valorização do calçado nacional.
Em 2022, o preço médio por par exportado subiu 8,7% para 26,40 euros, que comparam com os 23,56 euros de preço médio em 2017.
Em termos de países de destino, Portugal "está a crescer em praticamente todos os mercados mais relevantes", refere a associação do calçado em comunicado, destacando os exemplos da Alemanha, com um acréscimo de 11,7% para 433 milhões de euros, da França, com mais 15% para 384 milhões de euros, e Países Baixos que registaram um aumento de 25% para 306 milhões de euros.
A APICCAPS destaca, ainda, as vendas para países extracomunitários, que pesam já 20%, num total de 392 milhões de euros em 2022. Há dez anos não iam além dos 9%. "O Brexit contribuiu decididamente para esses números, mas não justifica por si só este salto expressivo. A título de exemplo, no espaço de uma década, as exportações para os Estados Unidos passaram de 19 para 114 milhões de euros", sublinha.
Para a associação, 2022 foi um ano "mais complexo do que os números, à primeira vista, faziam adivinhar", dado que, aos efeitos da pandemia e à Guerra da Ucrânia, "se associaram outros fatores de incerteza, em especial a escassez de mão-de-obra qualificada, o aumento acentuado da inflação e os seus reflexos na política monetária". Paulo Gonçalves, porta-voz da associação, aponta ainda, a "emergência de novos canais de distribuição, a afirmação de novos concorrentes, as alterações nas preferências dos consumidores, as incertezas sobre a evolução do consumo e a disrupção nas cadeias de abastecimento internacionais".
No comunicado, a associação dá ainda conta do "bom desempenho" da indústria de componentes para calçado, cujas exportações aumentaram 30,2% para 65 milhões de euros. O segmento "solas e saltos", em particular, cresceu 20% para 32 milhões. Em termos de mercados, o setor exportou mais 13% para a Alemanha, num total de 16 milhões, mais 40% para França, chegando aos 11 milhões, e mais 16% para Espanha, responsável por 9 milhões de euros.
Também os artigos de pele e marroquinaria atingiram um novo máximo histórico de 273 milhões de euros, mais 37,4% do que em 2021. Determinantes foram o mercado francês, que praticamente duplicou compras, num total de 86 milhões, e o espanhol, que cresceu 34,2% para 70 milhões de euros.
Apesar dos "bons resultados" em 2022, o setor assume "alguma apreensão" com o "abrandamento económico generalizado" em 2023. A prová-lo está o Boletim Trimestral de Conjuntura da APICCAPS, elaborado em parceria com o Centro de Estudos e Economia Aplicada da Universidade Católica do Porto, e que dá conta de "sinais de abrandamento" naa evolução da conjuntura da indústria portuguesa de calçado.
"As empresas continuam a considerar o estado dos negócios positivo, mas a percentagem das que o consideram melhor do que um ano antes diminuiu", explica a APICCAPS, dando conta que as empresas de maior dimensão e com maior orientação exportadora "fazem uma apreciação da situação mais favorável do que as restantes".
Apesar da produção e do emprego terem ainda evoluído positivamente no quarto trimestre de 2022, a carteira de encomendas teve uma evolução "menos favorável" do que em trimestres anteriores. "A percentagem de empresas que afirmam debater-se com escassez de encomendas está a aumentar, mas as preocupações empresariais são ainda lideradas pelo preço das matérias-primas e pela escassez de mão-de-obra qualificada", sublinha a associação.
"O ano de 2023 será particularmente exigente para as empresas exportadoras face a um enquadramento macroeconómico internacional de alguma contenção. Importa, por isso, reforçar a atividade de promoção externa do setor, para que seja possível potenciar novas janelas de oportunidade", argumenta Paulo Gonçalves.