Turismo tem 50 mil empregos para refugiados ucranianos

Falta de mão-de-obra no setor é uma porta aberta para acolher cidadãos ucranianos. Governo diz ter capacidade, para já, de alojar 1245 refugiados, mas admite rever números.
Publicado a: 

O turismo quer ser uma das principais vias de acesso ao emprego para os refugiados ucranianos que cheguem a Portugal fugidos da guerra no Leste Europeu. O problema da falta de mão-de-obra no setor tem vindo a escalar no pós-pandemia e, com o verão à porta, as necessidades vão aumentar, o que se pode traduzir num alargado leque de oportunidades laborais para ucranianos que venham a residir no país.

"Neste momento, temos uma carência, no setor do turismo, de 40 a 50 mil postos de trabalho", atesta a secretária de Estado do Turismo ao Dinheiro Vivo. Rita Marques quer que estas vagas possam estar inteiramente disponíveis para os cidadãos ucranianos que procurem emprego no país As empresas começaram já a arregaçar mangas e a inserir as ofertas de trabalho na nova plataforma criada pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), uma bolsa de emprego dirigida exclusivamente aos refugiados. Lançada há cinco dias, soma já 11 503 ofertas de trabalho, segundo os dados registados até às 9 horas desta sexta-feira.

"Existe uma enorme diversidade de profissões pretendidas, sendo que os principais setores com ofertas de emprego colocadas são tecnologias de informação, transportes (motoristas), restauração e hotelaria, setor social e construção civil", esclarece o Ministério do Trabalho ao Dinheiro Vivo. Rita Marques garante que está a ser feito um trabalho de sensibilização junto das empresas para que acedam à plataforma e migrem as vagas, que já existiam, para este local.

"Muitas já estavam nas bases de dados do IEFP. Agora, o que se impõe é verificar se essas vagas podem estar também abertas a cidadãos estrangeiros, neste caso, ucranianos", indica. Uma semana após o início do conflito armado entre a Rússia e a Ucrânia, e numa altura em que a Organização das Nações Unidas (ONU) estima já a fuga de um milhão de refugiados da Ucrânia para outros países da Europa, o governo português apressou-se a aprovar um programa de apoio que visa facilitar a integração dos refugiados no país. O Conselho de Ministros extraordinário, reunido no passado dia 1 de março, aprovou uma resolução que concede proteção temporária a pessoas deslocadas da Ucrânia permitindo-lhes o acesso aos números de identificação fiscal (NIF), de Segurança Social (NISS) e número de utente do Serviço Nacional de Saúde.
No início da semana, o executivo referiu ter, para já, capacidade para acolher 1245 pessoas, número que, entretanto, já admitiu rever.

A Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) mostra-se de porta aberta para "agilizar a absorção e o enquadramento socioprofissional destes refugiados". "A disponibilidade [para receber ucranianos] é total. A preocupação não é a mão-de-obra em si, é acolher pessoas que vêm nessa situação tão frágil. Estamos completamente disponíveis para poder acolhê-las e, designadamente, com esta situação do emprego, podendo oferecer-lhes as condições para trabalhar na hotelaria", explica Cristina Siza Vieira.

A vice-presidente executiva da AHP recorda que "as necessidades da hotelaria não têm sido satisfeitas" e, por isso mesmo, "haverá uma disponibilidade grande a imensos níveis de trabalho". A lista de funções em aberto é extensa. "Desde a parte mais tecnológica - como são exemplo as profissões de revenue manager, técnicos de manutenção ou de marketing. Também o trabalho mais administrativo e trabalho indiferenciado como o housekeeping, empregados de mesa e de copa ou apoio na cozinha. Há falta a todos os níveis", enquadra.

A Confederação do Turismo de Portugal (CTP) está igualmente a incentivar os seus associados a procederem ao registo das ofertas de trabalho na plataforma do IEFP e acredita que estes trabalhadores serão uma mais-valia para o setor. "Temos uma vasta comunidade de ucranianos em Portugal e estão perfeitamente enquadrados. Temos ucranianos a trabalhar nos mais diversos setores, são belíssimos colaboradores e têm uma grande facilidade em aprender línguas", analisa o presidente da CTP, Francisco Calheiros.
O responsável reitera a lacuna de "milhares de colaboradores no setor" e acredita que esta não é "uma situação de favor". "Esperamos que haja adesão, porque não há nada melhor quer para o empregador quer para o empregado. Precisamos deles e são bem-vindos", assegura.

Também no Algarve se concentram esforços para criar alternativas que sirvam as necessidades dos refugiados. A Região de Turismo do Algarve (RTA) em conjunto com a Segurança Social e com o IEFP têm desdobrado esforços no sentido de reunir opções de emprego, alojamento e outras atividades necessárias, para os trabalhadores ucranianos e para as respetivas famílias que os acompanhem.

"Os refugiados precisam de respostas, não só do ponto de vista do alojamento, mas do ponto de vista social. É preciso encontrar creches para as crianças, ocupações de tempos livres para os mais jovens. Equacionámos várias respostas, não só para a pessoa que possa vir a trabalhar na região, mas também para os outros dependentes", exemplifica o presidente da RTA, João Fernandes.

Com uma carência de 30 mil profissionais no turismo na região, a resposta no campo do emprego tem sido imediata. "Perspetivamos, sobretudo de março em diante, um aumento significativo da atividade económica associada ao turismo, até pelas reservas que já temos em carteira. Temos uma necessidade de mão-de-obra que apenas pode ser suprida com pessoas vindas de outros países, porque, se anteriormente íamos recrutar pessoas ao Alentejo ou ao Norte, atualmente essas regiões despertaram para o turismo e, por isso, fixam esses trabalhadores. Sendo que, na região [do Algarve], o número de pessoas disponível em idade ativa é claramente inferior à necessidade que temos quando o turismo está na sua plena atividade", relembra. No pacote de soluções que está a ser desenhado a sul do país, o alojamento é outro dos pontos que tem de ser equacionado.

A habitação a preços acessíveis para os trabalhadores é uma das barreiras à contratação no turismo algarvio e, por isso mesmo, várias unidades hoteleiras estão a disponibilizar, além de trabalho, alojamento.

Encontrar um teto para colocar as várias famílias ucranianas a viver no país assume-se como um desafio e este é, também, um dos eixos principais de atuação da secretaria de Estado do Turismo que tem, nesta fase, "registado e sistematizado" a oferta de unidades hoteleiras, de turismo e de Alojamento Local (AL) que possam estar ao dispor dos refugiados. O processo está numa fase inicial e, por isso, ainda não há números nem estimativas da oferta disponível.

"Estamos a sensibilizar os empresários que possam ter alojamento. Uma cama pode fazer sempre a diferença", afiança Rita Marques.

A AHP assume que a hotelaria consegue responder com alojamento em zonas como o Algarve e em instalações como turismos rurais, durante a época baixa. "Nas cidades é manifestamente mais difícil. Não há grande disponibilidade em hotéis urbanos de ter instalações para alojamento do pessoal. É mais complexa esta situação", lamenta Cristina Siza Vieira.

Enquadrar os novos trabalhadores no mercado português apresenta alguns desafios. Fazer a ponte entre as ofertas disponíveis e o perfil dos refugiados pode não ser tão simples como parece e, nalguns casos, a falta de certificação profissional será um entrave.

"Muitas vezes as pessoas saem do país sem a possibilidade de reunir elementos ligados às suas formações e é mais difícil integrá-los. Por exemplo, no caso de um eletricista ou mecânico, que precisam de provar as suas competências. Há aqui um exercício de ajustamento", analisa o presidente da RTA, João Fernandes.
Também a barreira da língua pode ser, inicialmente, um dos fatores de exclusão de algumas posições.

"É evidente que, nestes primeiros tempos, uma das funções onde há bastante carência, que é na receção, a integração não é tão imediata, por causa da questão da língua. Embora também o próprio IEFP ministre cursos de línguas. E há também o inglês como língua franca, mas não é tão imediato porque é precisa alguma formação mais específica, no perfil de cada unidade hoteleira", acrescenta Cristina Siza Vieira.

A secretária de Estado do Turismo, Rita Marques, garante que está a ser desenhada uma resposta em conjunto com a rede de 12 Escolas do Turismo de Portugal, no sentido de criar ações de capacitação e formação que vão ao encontro das necessidades de aprendizagem e integração dos ucranianos.

Os trabalhadores ucranianos serão uma ajuda para preencher alguns dos espaços vazios no turismo, mas não chegam. Com a época alta à espreita, o problema dos recursos humanos no setor adensa-se. Há muito que tanto as associações como os empresários defendem a contratação de mão-de-obra estrangeira para fazer frente à falta de trabalhadores, nomeadamente em posições menos qualificadas e com remunerações mais baixas.

O Brasil, Filipinas, Marrocos e os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) têm sido apontados como soluções.

O governo tem assinado acordos de mobilidade com outros países neste sentido e esta quinta-feira foi publicado, em Diário da República, o acordo entre Portugal e a Índia sobre o recrutamento de cidadãos indianos para trabalhar no país. O acordo, assinado a 13 de setembro, entra agora em vigor e visa "facilitar os fluxos de migração laboral legal e segura entre os dois países, estabelecendo os procedimentos para a admissão de cidadãos indianos para o desempenho de uma atividade profissional, sob contrato de trabalho, em Portugal", lê-se no despacho.

A partir de agora, as empresas portuguesas que pretendam recrutar um trabalhador de nacionalidade indiana deverão manifestar essa intenção junto do IEFP que entrará em contacto com as autoridades da Índia. No fim do processo de seleção, e após a celebração do contrato de trabalho, será concedido o visto ao trabalhador recrutado.

A associação que representa os hotéis portugueses confirma as conversações e o interesse entre os vários países. "A informação e os contactos que temos tido neste momento são com as Filipinas, com Marrocos e com a Índia. Os agentes locais e congéneres do IEFP estão disponíveis para fazer esse levantamento e a correspondência de quem procura trabalho", revela a vice-presidente executiva da AHP. Cristina Siza Vieira diz aguardar a ratificação dos restantes acordos e defende também a mobilidade de trabalhadores entre empresas do mesmo grupo que operem em diferentes países. "Estamos a trabalhar para que quem já tem empresas noutros países da CPLP tenha uma maior facilidade na mobilidade dos trabalhadores. Estamos a falar de grupos que têm presença em Cabo Verde, São Tomé ou Brasil, por exemplo".

Diário de Notícias
www.dn.pt