Vindima. Apanha da uva está quase terminada, mas o ano promete ser difícil com excesso de vinho

Produtores durienses reclamam já nova destilação de crise sobre os vinhos que estão ainda a fermentar nos lagares. Lisboa e Alentejo queixam-se que a recente intervenção no mercado, com 20 milhões de euros, ficou "aquém das necessidades" e reclamam maiores apoios à promoção.
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A apanha das uvas está quase terminada, em todo o país, mas o sentimento geral é de grande apreensão face à campanha que agora arranca. É que a produção parece ser farta, num ano em que as adegas continuam ainda cheias de vinho por vender do ano anterior. O Governo destinou 20 milhões de euros, de fundos comunitários, para apoio a uma destilação de crise, antes da vindima, tentando ajudar à normalização do mercado, mas o valor só chegou para metade dos quase 58 milhões de litros candidatados. No Douro, os representantes das adegas cooperativas e dos viticultores pedem já nova intervenção de crise, para destilar o vinho que ainda está a ser produzido. A retração do consumo, interno e externo, é uma preocupação generalizada.

Com uma produção esperada de 1,6 milhões de hectolitros, o Douro é a região que mais produz vinho em Portugal. As previsões iniciais apontavam para um crescimento de 10% em relação ao ano passado, mas admite-se que o granizo e os ataques de míldio e de outras doenças da vinha tenham levado a uma redução da produção. O que acaba por ser uma boa notícia perante a existência de tanto vinho por vender. A região quis enviar para destilação quase 14 milhões de litros, mas, como o excesso de procura obrigou a um rateio de 50%, só metade terá ido para queimar.

Citaçãocitacao7,4 milhões de hectolitros: É a rodução total de vinho estimada para a campanha de 2023/2024, mais 8% face à vindima anterior. Douro, Lisboa, Tejo, Alentejo e Verdes são as regiões com os maiores crescimentos absolutos.

"Continua a haver excesso de vinho dentro de portas e, neste momento, há adegas cooperativas que estão a receber 30 a 50% de uvas a mais do que o habitual, com os viticultores a implorar para poderem descarregar as uvas, porque os grandes operadores fecharam-lhes as portas", garante o presidente da Casa do Douro - Federação Renovação do Douro, que se diz "muito preocupado" com a situação que se vive na região. "Há muita gente a querer desistir da atividade, o que é um problema para os territórios. Estou com muito medo, há situações de penúria, muita gente não vai ter dinheiro para fazer o granjeio normal da vinha para o ano, porque não retiraram rendimento para isso nesta vindima. Tudo isto é dramático", afirma Rui Paredes, que está a organizar encontros de viticultores pela região, de modo a auscultar as suas preocupações. O responsável lembra que, ao contrário das empresas privadas, as adegas cooperativas são obrigadas a receber toda a uva que os sócios lhe queiram entregar, funcionando como um "amortecedor em momentos de crise", mas sublinha: "Isto vai impactar muito os resultados das próprias cooperativas e muitas delas já estão numa situação financeira delicada".

Já o presidente da Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) fala num "balanço dual", uma vez que, do ponto de vista da qualidade, tudo indica que "será uma vindima acima da média", já que as condições que precederam a colheita foram "quase ideais", mas cheia de problemas, "com um claro" excesso de produção. A associação, garante, "já havia alertado para a conjugação de uma série de fatores negativos", como o facto de o programa de destilação de crise "não ter atingido os níveis que eram desejáveis", a par de uma "situação de mercados francamente desfavorável", com as vendas a vermelho em volume, tanto no vinho do Porto como nos vinhos do Douro. "Estamos ligeiramente acima do ponto de vista do valor, com um aumento do preço médio, mas, ainda assim, abaixo do desejável, o que quer dizer que não fomos capazes de repercutir no preço final aquilo que foram os aumentos de matéria-prima, materiais de engarrafamento, etc.", assegura.

Excesso estrutural

Se a atual colheita será maior ou menor do que a do ano passado acaba por ser quase irrelevante. "Não são conhecidos ainda os números finais, mas, mesmo que seja uma produção igual à do ano passado, será sempre excessiva. Estimamos que estruturalmente existe, no Douro, cerca de 20% de vinho a mais, por isso, ser igual à do ano passado, um pouco menos ou um pouco mais, pouco importa, estamos sempre a falar em excedentes", diz. E, por isso mesmo, a produção autorizada de vinho do Porto havia baixado, de 116 mil pipas, em 2022, para 104 mil, este ano, o que representa, logo à partida, uma machadada no rendimento dos viticultores, já que as uvas para beneficiar são vendidas a mais do dobro das que serão destinadas a vinhos DOC Douro.

O presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, a entidade certificadora da região, não quis falar enquanto a vindima não estiver totalmente concluída.

Citaçãocitacao941,5 milhões de euros. Foi o valor das exportações de vinho português em 2022, o que representa um aumento homólogo de 1,5%. Em volume, Portugal vendeu ao exterior, no ano passado, 3,275 milhões de hectolitros de vinho, o que corresponde a menos 0,4%.

Sobre as soluções, a AEVP aponta a necessidade de ajustar a oferta à procura. "A solução ideal era fazer crescer o mercado para absorver estes excedentes, é para isso que trabalhamos, mas não tem sido possível. E, por isso, temos que intervir do lado da oferta. A AEVP propôs a redução dos limites de produtividade por hectare, proposta que não teve vencimento no Conselho Interprofissional", refere António Filipe, que não descarta a hipótese de programas de arranque de vinhas. "Não há que ter pruridos ou reservas quanto a isso, é um processo que acontece em todo o mundo", frisa. A associação não concorda com a destilação de crise reclamada pela produção, considerando que "não faz muito sentido pedir para destruir algo que ainda está a ser produzido", no entanto, António Filipe promete que não votarão contra se for entendido que essa é a forma de controlar a situação.

Preço da uva em queda

No resto do país, ninguém quer ouvir falar em arrancar vinha, apesar de ser isso que está a acontecer, por exemplo, em França, onde serão arrancados milhares de hectares, na região de Bordéus. "Isso é muito drástico. Pessoalmente, sou contra. O mercado não está fácil, mas diria que há áreas mais nobres para alocar os fundos públicos do que no arranque de vinha", diz o presidente da CVR de Lisboa, a região que mais vinhos candidatou à destilação, em julho, num total de quase 16 milhões de litros. Só metade seguiu para queima. E agora chega nova vindima, que se estimava que pudesse ser 10% acima do ano passado, num total de 1,3 milhões de hectolitros, mas que Francisco Toscano Rico admite que possa ser ainda superior.

"O mercado está muito difícil este ano, será talvez o pior dos últimos 10 anos em termos de conjuntura mundial. E, no mercado nacional, não acredito que o dinamismo da restauração, por força do turismo, compense as quebras na grande distribuição", explica. Embora as vendas totais da região estivessem a subir 1,5% no final de setembro, Toscano Rico antecipa meses difíceis pela frente. A existência de mais vinho, na atual colheita, poderá, admite, "ajudar a compensar um bocadinho a perda de rendimento dos viticultores" por via da "desvalorização" do preço das uvas. "O que se diz é que as grandes casas estão a procurar segurar os seus fornecedores habituais, mantendo os preços. Para os restantes, a desvalorização é de 20 ou 30%. É uma loucura", frisa.

Para o responsável, o setor precisa de "mais transparência e mais controlo", mas não só. Toscano Rico acredita que vai ser preciso limitar a expansão da área de vinha. Mas isso, admite, implica uma discussão da fileira sobre os critérios de prioridade a fixar para o futuro. Além disso, sublinha, é preciso reforçar a promoção externa e os 10 milhões de euros que o setor paga de taxas todos os anos "têm que servir para isso, em vez de serem desviados para tapar buracos do Orçamento do Estado".

Citaçãocitacao1000 milhões de euros. Era a meta estabelecida pela ViniPortugal para as exportações em 2023, mas que se adivinha improvável. O setor teria de crescer acima dos 6% para lá chegar. Até julho, as vendas ao exterior cresceram 4,5% para 536 milhões de euros.

Também o presidente da Comissão Vitivinícola do Alentejo não concorda com o arranque de vinha, classificando-a como uma "decisão muito dolorosa" e que poria em causa o desempenho futuro dos produtores. Mas reconhece que a região deverá terminar a vindima com qualquer coisa como 276 milhões de litros em stock, o equivalente a cerca de duas colheitas e meia dentro de portas. "É um valor muito elevado e a maior dificuldade é haver espaço para armazenar tudo isto", reconhece Francisco Mateus, sublinhando que "a expectativa de conseguir escoar este volume de produção aos preços adequados e em tempo útil torna-se mais complicada". Não indica valores, mas reconhece que houve operadores a disponibilizarem-se para receber as uvas a preços muito baixos.

Francisco Mateus fala em "anos muito difíceis" pela frente, até pela mudança de hábitos dos consumidores, que começam a privilegiar os vinhos brancos, um desafio para uma região que produz maioritariamente vinhos tintos, e não acredita que haja grandes medidas de apoio. "Os franceses puseram 200 milhões de euros para a destilação, tentando sanar a situação de uma vez. Em Espanha, também apostaram numa destilação mais musculada. Cá, ficámos 50% aquém das necessidades", lamenta.

Reforçar a promoção

Nos Verdes, a quarta região com maior produção no país, os stocks não preocupam e a vindima, ao contrário da previsão inicial, poderá até ficar aquém do ano passado, o que não é uma má notícia, atendendo à conjuntura dos mercados internacionais. A presidente da CVRVV, a comissão de viticultura local, fala num ano "particularmente difícil", em termos vitícolas, com casos de escaldão e alguns episódios de míldio e de black roth que levaram a um "ligeiro decréscimo" da produção, esbatendo o aumento esperado por via da entrada em produção de novas vinhas.

Números definitivos só depois de 30 de novembro, quando todas as declarações de colheita estiverem submetidas. O que preocupa Dora Simões é a estagnação dos principais mercados, razão porque, diz, é preciso investir, ainda mais, em promoção, ajudando os produtores "a ver onde é que há oportunidades novas, não onde nos reduzem preços, mas onde nos permitem aumentar o preço médio dos nossos vinhos".

No Tejo, o prognóstico é para um crescimento da produção de 10% este ano, para cerca de 755 mil hectolitros, e embora os excedentes não preocupem Luís de Castro, da CVR da região, a crise e a falta de poder das famílias preocupa. "O dinheiro não dá para tudo, o vinho poderá continuar a sofrer por isso", argumenta. Apesar disso, os vinhos do Tejo esperam fechar 2023 com um aumento de 25% nas vendas ao exterior.