

"Somos um banco central independente há muito tempo. Somos um banco central independente agora e não veremos mudanças nisso", garantiu o novo presidente do banco central dos Estados Unidos da América, a Reserva Federal (Fed), quando questionado sobre se lhe "importa o que o Presidente quer". Este último "Presidente" é Donald Trump, que há meses reclama à Fed descidas de taxas de juro.
Foi assim a estreia de Kevin Warsh, o líder da Fed, num dos seus primeiros encontros de banqueiros centrais e calhou ser em Sintra, Portugal, no Fórum BCE (Banco Central Europeu).
Já no final dos finais, a anfitriã, a presidente do BCE, Christine Lagarde, despediu-se dos "amigos" que reviu e fez em Sintra e coroou o seu discurso de despedida e encerramento do Fórum com a palavra "saudade" e disse que não leu todo o texto que tinha na mão porque a parte final encomendou-a ao seu "agente de inteligência artificial que leu os artigos científicos todos" apresentados nestes três dias (segunda a quarta-feira de Fórum BCE). Resultado: o texto feito pelo robô ficou "aborrecido de morte".
Pouco antes de Lagarde subir ao púlpito, esta quarta-feira, no debate que encerrou os três dias do encontro anual, Warsh, que foi nomeado por Trump em janeiro e assumiu o cargo na autoridade monetária da maior economia do mundo a 22 de maio passado (para um mandato de quatro anos) celebrar por diversas vezes as coisas boas que a IA irá trazer à economia (mais investimento, produtividade, crescimento) e, muito importante, acenou que a Fed vai manter a sua independência face aos desejos de Trump, que, recorde-se, este ano empurrou para fora da presidência do banco central o anterior governador, Jerome Powell, por este não cortar juros de forma pronunciada.
Mas aproveitou o embalo e também acabou por se defender de eventuais ataques e insistências do Chefe de Estado no futuro, tranquilizando os mais temerários em relação a subida dos preços, dizendo que há vários indicadores que apontam para um arrefecimento da inflação num futuro próximo, o que, pode-se dizer, facilitará o trabalho que será agradar a Trump.
"As expectativas de inflação nos primeiros quatro meses, nas primeiras quatro semanas deste período [do seu mandato], desceram. Os riscos de inflação diminuíram", atirou Kevin Warsh.
"Vamos entregar estabilidade de preços nos EUA. Foi isso que este comité de governadores se comprometeu a fazer. E o nosso objetivo é fazê-lo. A tática, a estratégia e o resto ainda está para vir" e acrescentou: "se houver pessoas no sector empresarial, nos mercados financeiros, que pensaram que este banco central se sentiria confortável com um objectivo de inflação acima dos 2%, bem, penso que vão ficar desiludidas".
Sobre a "tática", Warsh confirmou que decidiu criar "grupos de trabalho" (task forces) para encontrar novas e melhor fontes de informação, dados que permitam à Fed decidir juros mais "em tempo real" e deixar de usar inquéritos que "já não fazem sentido", por exemplo.
Quanto ao poder da Inteligência Artificial, na opinião do chefe da Fed é tão grande que vai moldar o "futuro" da economia, da produtividade e também a forma como os bancos centrais tomam decisões. Disse ainda que os EUA lideram nesta corrida e que, apesar de poder fazer subir preços num primeiro momento, "a IA é uma revolução" em termos mundiais.
“Todos trabalhamos com a estabilidade de preços, talvez não seja o nosso único objetivo, mas se há algo em comum que ouvi nos últimos dias é a abertura a estas questões de IA, abertura à produtividade, mas todos olhámos à nossa volta e vimos que os preços estão muito altos”, disse Warsh no painel de encerramento do Fórum, onde partilhou o palco com Lagarde (do BCE), Andrew Bailey (governador do Banco de Inglaterra) e Tiff Macklem (governador do Banco do Canadá).
“A minha esperança, a minha aspiração, é que daqui a nove ou doze meses estejamos a utilizar as novas tecnologias para compreender o que está a acontecer na economia real de forma contemporânea e em tempo real, o que nos permitirá, enquanto banqueiros centrais, tomar melhores decisões”, acrescentou Warsh que evitou a todo o custo dar o mínimo sinal que fosse de qual deve ser a próxima decisão da Fed nas taxas de juro, dentro de quatro semanas.
Mas pelo registo geral do debate, que reuniu quatro banqueiros centrais de quatro zonas monetárias diferentes (Zona Euro, EUA, Inglaterra e Canadá), a probabilidade de subida de taxas de juro diminuiu de forma relevante nas últimas semanas.
Tal como Warsh, Lagarde explicou que no BCE estão "abertos a novas medidas, novas formas de pensar, novas ferramentas que nos ajudem e auxiliem na tomada de decisões corretas".
Exemplo disso é que o BCE inaugurou a "utilização de cenários, por exemplo, onde estabelecemos cenários mais moderados, graves e adversos para garantir que as nossas decisões são sólidas e robustas em todos eles".
"Penso que os riscos que temos para o lado ascendente na inflação e para o lado descendente no crescimento são agora provavelmente mais equilibrados do que eram há algumas semanas" e esta avaliação alterou-se "rapidamente".
"Se olharmos para a rapidez com que o preço do petróleo desceu para 72 dólares por barril agora, quando chegou aos 120 dólares em março... São mudanças tão aceleradas que temos de estar preparados para medir de forma diferente e mais precisa usando a IA, por exemplo" e também para olhar ao redor e "realmente avaliar o impacto que terá na produtividade".
Sobre as taxas de juro, Lagarde disse que a prioridade do BCE é estabilidade de preços, agarrar a inflação aos 2% e "nunca perder o controlo", nunca deixar "o génio escapar da lâmpada".
Essa reação de preocupação máxima com os preços da Zona Euro ajuda a explicar o facto de o BCE ter sido o único dos quatro bancos centrais representados neste painel, em Sintra, a subir a taxa de juro principal na sequência do ataque dos EUA ao Irão e da nova guerra no Médio Oriente (subi um quarto de ponto a 11 de junho, para 2,25%)
“Começamos de um ponto de partida diferente” porque a inflação europeia estabilizou em 2% durante algum tempo antes da guerra, comentou Lagarde. Sobre o futuro, tudo em aberto, como sempre, mas o tom da palavras da chefe do BCE, em Sintra, pareceu menos agressivo em relação à inflação. Disse que a subida de taxa de juro agora em junho resultou de "circunstâncias de política monetária perfeitas para o fazer". Como referido, os riscos sobre inflação e crescimento também estão agora "mais equilibrados", disse.
O governador canadiano Macklem também apontou para o novo ambiente e indicou que está “confortável” com a taxa atual (é 2,25% desde outubro).
Andrew Bailey, do Banco de Inglaterra, revelou que até há relativamente pouco tempo, poucas semanas, ainda se considerou, em Londres, reduzir a taxa diretora que atualmente está em 3,75%, mas isso agora mudou e "está fora de questão”.