Transição digital foi a expressão mais ouvida durante o IDC FutureScape 2023, o evento anual organizado pela consultora para anunciar as principais tendências do mercado tecnológico para os próximos 12 meses. Entre os desafios ao nível da cibersegurança, dos orçamentos ou do talento, a iniciativa não terminou sem abordar as especificidades da transformação da administração pública. "Na Europa, Portugal é um dos principais países na transformação digital dos serviços públicos", elogiou Toomas Ilves, presidente da Estónia entre 2006 e 2016.
O antigo líder, que encerrou o evento da IDC no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, é reconhecido pelo trabalho de digitalização do setor público num país que permite o acesso a praticamente todos os serviços do Estado através da internet. Durante a intervenção, Ilves explicou que, neste campo, Portugal e Estónia são países com boas práticas que, defende, devem ser alargadas a toda a União Europeia.
"O que realmente devíamos querer fazer era criar uma zona Schengen para os registos médicos", aponta, em referência ao tema da partilha de dados clínicos entre os Estados-membros. A discussão não é nova, mas Toomas Ilves garante que este cenário só não é ainda uma realidade por "falta de vontade política dos chamados "motores da Europa": França e Alemanha, diz.
Num país como a Estónia, onde a vida dos cidadãos e a informação classificada do Estado é virtual, como se assegura a segurança dos dados digitais? Toomas Ilves lembra a ocupação da Estónia pela União Soviética, durante quase 50 anos, para justificar um grau de "paranoia" permanente do país na proteção da sua soberania e conta a solução encontrada. "Fizemos um acordo com o Luxemburgo para que eles guardassem um servidor nosso e o tratassem como se fosse uma embaixada. Este servidor funciona 24 horas por dia e todos os dados críticos estão lá", explica.
Adicionalmente, o facto do país do Leste da Europa, que aderiu à União Europeia em 2004, ter uma grande concentração de empresas unicórnio torna-o especialmente próximo da tecnologia de ponta. "Isto permite uma colaboração entre os setores público e privado que não se vê noutros países", aponta. Até ao momento, o país conta com dez unicórnios.
PRR impulsiona digitalização
O pacote de fundos comunitários do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) prevê cerca de 1,8 mil milhões para a transição digital na administração pública, da Autoridade Tributária à Segurança Social, passando pela educação ou interação entre cidadãos e Estado. Num painel que juntou empresas e a Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública (eSPap), a vice-presidente do organismo que concentra o desenvolvimento de soluções digitais para os serviços públicos disse acreditar que o PRR vai permitir "investir nas áreas basilares [da transição digital], nomeadamente nas infraestruturas e na segurança". Teresa Girbal fala mesmo em "oportunidade única" depois de décadas com "orçamentos muito reduzidos para tecnologias de informação", mas reconhece um desafio ao nível dos recursos humanos.
"Esse é claramente um dos grandes desafios, não só a dificuldade que temos para captar talento, mas também para o reter", diz. A solução passa, acredita, pela aposta na conversão de recursos humanos, dotando-os de competências digitais, bem como pela "utilização de ferramentas de inteligência artificial para libertar recursos que possam fazer outras coisas". "O volume de projetos que temos agora é assustador", remata.